Uma mensagem de Natal e Final de Ano: “Certa noite de chuva” (David Coimbra)

 

Semana passada, estávamos pensando em qual mensagem de Natal e Final de Ano que encaminharíamos para os nossos familiares, amigos e clientes, sempre é um dilema neste período do ano, escolher as melhores idéias, frases, ou seja, sentimentos! Foi quando, em meu carro, retornando de um trabalho em um cliente, na sexta-feira passada, em torno das 18h30min que achei a mensagem, estava ouvindo o programa de rádio “Pretinho Básico”, quando o Alexandre Fetter, comentarista deste programa, leu um artigo / crônica do David Coimbra. O título da crônica é “Certa noite de chuva”, e ao escutar e refletir sobre o seu conteúdo me emocionei e acredito que vocês também irão compartilhar deste mesmo sentimento.

Desejamos à todos um Feliz Natal e 200 “inove” repleto de alegrias e conquistas!

Segue a crônica, publicada no jornal “Zero Hora” no dia 28/12/2007:

Chovia muito no último dia em que vi meu pai. Eu estava com oito anos de idade e padecia na cama com 40ºC de febre. Amígdalas.

Meus pais tinham se desquitado havia já alguns meses. Eu, meus irmãos e minha mãe morávamos num apartamento de um quarto na Assis Brasil. Ele foi nos visitar e deparou comigo tiritando sob a coberta.

Lembro com nitidez daquela noite, dele parado à soleira da porta do quarto, de pé, olhando-me, e minha mãe ao lado, com o papel da receita do médico na mão. Ele tomou a receita e ofereceu-se para ir à farmácia. Deu as costas para o quarto, mergulhou na escuridão do corredor e foi embora. Nunca mais o vi.

Logo depois ele se mudou para outro Estado, no Centro-Oeste, e lá construiu o resto da sua vida. Um dia de 2001 alguém me disse:

— Teu pai morreu ontem.

E eu não sabia o que sentir.

Não conto essa história com ressentimento. Porque acho que entendo o que aconteceu com meu pai, naquela noite de chuva. Ao sair do apartamento, ele de fato tencionava comprar os remédios.

— Vou comprar dois de cada! — recordo que disse.

Mas meu pai era alcoolista. Na rua, deve ter cruzado pela porta de um bar, ou com um amigo, e parou para beber. Quando deu por si, era tarde para ir à farmácia e tarde para desculpar-se. Continuou bebendo, gastou todo o dinheiro e, no dia seguinte, envergonhado, preferiu não dar notícias.

Assim passou-se um dia, e outro, e mais outro. De repente, havia transcorrido tempo demais para voltar atrás ou para dar explicação. Meu pai não enfrentou a própria vergonha, isso não é incomum. Acontece. É compreensível.

O que sempre me enfeitiçou nessa história, que, afinal, é parte da minha própria história, não foi o detalhe da desistência do meu pai. Não foi o abandono. Foi o momento em que meu pai decidiu entrar no bar. Uma decisão tão aparentemente irrelevante, tão fácil de ser tomada, dar dois passos da calçada em direção a uma porta aberta, e, ao mesmo tempo, uma decisão tão crucial.

Fico pensando em como a vida é repleta dessas pequenas deliberações que podem alterar rumos e mover destinos. Fico pensando em todas as palavras espinhosas não ditas, nas vezes em que o sinal amarelo não foi cruzado, em que o gatilho não foi apertado, em que não liguei para ela, nas chances que deixei passar, e nas vezes em que fiz tudo isso, por bem ou por mal.

Um passo, uma palavra, um gole, um pedido de perdão que não foi feito, e tudo muda. Mudou para meu pai. Mudou para mim. Neste fim de ano, o que desejo a todos é isso, que o passo seja certo, que a palavra seja macia, que o gole valha a pena, que o perdão seja pedido. E concedido.

3 Responses

  1. Fernanda Says:

    Helio, muito bonita a mensagem….Feliz Natal para nós e as meninas.

  2. Hélia G Sebben Says:

    Sr.Hélio!
    Muito profunda a mensagem. Atitude é tudo! O que não podemos é vacilar diante das nossas intuições. Tem coisas na vida que necessitam apenas da nossa decisão. Ainda que seja dificil tomá-la,penso que sempre é melhor tentar…outra vez! Que todos os dias do ANO NOVO, sejam abençoados, energizados e prósperos para o Sr. a Fernanda e as meninas.
    Com muito carinho.
    Hélia G Sebben e família

  3. Hélio Rocha Says:

    Prezada amiga Hélia, agradecemos e retribuímos os votos de um próspero 200″inove”!

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