Uma das heranças da filosofia antiga é o entendimento de que o ser humano tem corpo e alma. Uma dualidade que pode ser compreendida como um todo maior, acenando para algo não material, como parte constitutiva da existência. A tentativa de apresentação de partes que completam um todo não pode ser reduzida à divisão. Olhar o ser humano globalmente é acolher a possibilidade de uma existência que ultrapasse o campo material. Assim, pode-se dizer que há algo que vai além do concreto. E essa dimensão é identificada como existência espiritual.
Longe da pretensão de comprovar cientificamente a dimensão espiritual, pode-se, porém, deduzir que existe uma realidade nem sempre descritível que enriquece a vida e possibilita sentimentos e ações que ultrapassam o campo da materialidade. O ser humano tem alma. Se for motivo de inquietude para alguns, não está impedido o caminho de comprovação do contrário. Certamente muito ainda será dito, concordando ou discordando, mas enquanto isso é aconselhável não excluir a possibilidade de que a espiritualidade faz diferença.
O cotidiano é repleto de sinais de espiritualidade. Independente de entendimento ou não, a vida segue seu ritmo e as descobertas, mesmo distantes do campo da cientificidade, possibilitam reflexão e encantamento. Sinceramente, é impossível não acreditar em algo maior, que ultrapasse o campo da percepção. Não admitir a dimensão espiritual é apequenar a existência, vivendo à margem da profundidade, onde a contemplação ocuparia o lugar da explicação.
As pessoas disponibilizam a maior parte do tempo em função do trabalho. A centralidade do trabalho já foi identificada através de pesquisas. Existir quase se resume em trabalhar. Muitas pessoas não vivem longe do trabalho. Daí a importância de focar o olhar para os ambientes onde acontece o trabalho humano. Tais espaços deveriam compreender antropologicamente quem é o ser humano e quais são suas buscas mais profundas. As empresas deveriam ter alma para proporcionar ambientes sadios, onde estariam pessoas felizes, desempenhando tarefas.
Os avanços tecnológicos qualificaram a vida. Melhorias são percebidas em todos os lugares. Inclusive, o número de anos está sendo ampliado. Porém, não basta adequar os meios. O vazio existencial insiste em acompanhar os humanos. Hoje, procuram-se pessoas com humildade, ambientes saudáveis, onde a paz possa ocupar seu lugar, onde o ‘nós’ assuma o espaço do ‘eu’. A falta de perdão tem entristecido a convivência, o egoísmo tem roubado a sensibilidade e a indiferença se faz presença na maior parte da existência.
Empresa com alma é questão estratégica. É humanizar ambientes, devolvendo à vida a sua naturalidade, favorecendo a construção de laços de pertença. É continuar propondo metas, sem esquecer do diálogo, da escuta e do reconhecimento. É continuar correndo, sabendo que haverá tempo para tudo, inclusive para viver. É treinar a interioridade para que a ganância não seja a inquilina da existência. É utilizar os braços também para o abraço, celebrando a convivência.
Mais do que receitas, empresas com alma necessitam pessoas convictas do valor da vida, que não abram mão da paz e do amor, tão escassos em tempo de excesso de materialismo, que tem denegrido a existência. Certamente um longo caminho terá que ser trilhado até que a utopia se torne realidade. Ensaios já estão desvendando que nada é misterioso, mas é necessária muita persistência. Empresas com alma é a saída para o alcance da felicidade.
Fico à disposição de vocês!
Frei Jaime Bettega




