Como obter Energia e Vigor para o ano todo – Parte 1 (Por Patrícia Prigol)

Você sabe o que é “stress”?

stress_oneÉ uma reação normal e esperada do organismo que se coloca em “prontidão” ou em estado de alerta na tentativa de enfrentar a situação que se apresenta de forma ameaçadora ou conflitante.

Desde os tempos antigos nossos ancestrais já experimentavam uma grande quantidade de adrenalina, hormônio produzido em excesso por conta das ameaças sofridas.

Quando nos sentimos ameaçados, uma espécie de dispositivo é acionado pelo cérebro que acaba por preparar todo o organismo para enfrentar a realidade.

A necessidade de adaptação do homem ao ambiente se dá por meio de um arsenal químico que altera inúmeras funções no organismo produzindo a “sensação de stress”. Essa sensação é experimentada através do aumento da pressão arterial, taquicardia (quando o coração bate aceleradamente), sudorese (aumento do suor), queda da temperatura (especialmente mãos e pés), enfim, quando o organismo altera seu equilíbrio e seu metabolismo na tentativa de eliminar o conflito.

A diferença que encontramos entre o homem do passado e o homem da atualidade é que os nossos ancestrais viviam “queimando os excessos produzidos pelo organismo”, eliminando as toxinas. Essa era a saída encontrada, o que implicava em constantes fugas e em atividade física permanente.

O homem moderno é sedentário por natureza. São poucas as pessoas que conseguem permanecer num programa de qualidade de vida que envolva, por exemplo, atividade física regular. Hoje, lutar pela nossa sobrevivência é planejar nosso futuro com responsabilidade e sabedoria, entendendo que as escolhas que fizemos podem determinar o rumo da nossa história. 

Na semana que vêm, continuamos este assunto!

Boa semana para vocês!

80 anos de sabedoria (Por Patrícia Prigol)

IMG_6592Normalmente escrevo sobre temas relacionados à Psicologia. Contudo resolvi abrir um espaço, nesta coluna, entendendo que ao escrever sobre a experiência de vida de uma pessoa que completará 80 anos, pode nos servir de um exemplo que ilustra as mudanças comportamentais vividas na maturidade. Com o aumento da perspectiva de vida, uma nova identidade social vem sendo construída nas últimas décadas promovendo a inclusão de pessoas da maturidade em todos os segmentos da sociedade. O exemplo de hoje se chama: Clari Ferraro. Sua sabedoria e simplicidade revelam as vicissitudes e os dilemas vividos por muitos:

Minha tia, tia Clari, vai completar 80 anos de vida em setembro do corrente ano. Fui surpreendida – embora não fosse surpresa alguma, por conhecê-la -, com alguns recados deixados na caixa postal do meu celular. Ao retornar a ligação, tia Clari anuncia: “Vou fazer 80 anos e você é minha convidada. Vou reunir parentes e amigos. Uma festa simples, na chácara. Não precisa se preocupar com o trabalho. O almoço vai acontecer num domingo. Não quero presente, quero a presença de todos. Meus filhos comentaram que eu deveria ir a um restaurante e comemorar lá o meu aniversário. Mas não concordei com a idéia. Gosto de dar a festa para os meus convidados. Há pouco tempo mudei de residência. Não moro mais numa casa, moro num apartamento e troquei muitas coisas velhas por coisas novas. Não tenho muito dinheiro guardado. Minhas reservas se foram. Na verdade gastei quase tudo nesta mudança porque queria coisas boas, de qualidade mesmo! Mesmo sem muita reserva em caixa vou dar esta festa. Então, está feito o convite. Te espero lá”.

É bom lembrar que a tia Clari vem comemorando seu aniversário há muitos anos. É algo que realmente lhe dá prazer.

Sabe aqueles momentos que você, por um segundo, um curto espaço de tempo, retorna ao passado e como num flash-back recorda todos os bons momentos vividos ao lado das pessoas que você ama? Lembrei dos meus avós paternos e do amor incondicional que experimentei através deles. Foi um momento nostálgico, mas cheio de boas lembranças e de muita saudade. Não podia deixar este momento ir embora. Então convidamos minha tia para almoçar na casa dos meus pais. Queríamos saber mais dessa emocionante história de vida. Aliás, essa é uma das fases mais bonitas e interessantes na vida das pessoas, pois elas não se preocupam com o que os outros vão pensar a seu respeito. Soltam a língua e o verbo, falam o que pensam e como se sentem, sem vergonha ou medo algum. Como era de se esperar, tia Clari levou os álbuns de fotografia para recordar os bons momentos e os momentos de grande superação. A história da tia Clari não foi nada fácil, não foi um “mar-de-rosas”. Embora ela soubesse, com enorme sabedoria, lidar com os espinhos para ficar com as rosas passou por momentos de grande turbulência. Neste momento, ao relembrar as passagens da tia Clari, tive a certeza absoluta da influência dessa família na minha formação e na minha escolha profissional. Fui construindo a psicóloga que sou hoje através da experiência vivida nesses vínculos e em outros também. Recebi, como legado desta família, o respeito e o amor ao próximo, sem distinção ou discriminação.

A lucidez da tia Clari, reflexo da consciência que tem a respeito de si mesma e do outro, se mantém intacta, regada a muita leitura, é bom que se diga, pois tia Clari lê muitos livros, o que faz com que sua capacidade perceptiva, sua inteligência racional e emocional sejam exercitadas, preservando as funções mais complexas de sua mente, mantendo-se não somente atualizada, mas tornando-a mais próxima da realidade da mulher na contemporaneidade.

Ah! Outro segredinho da tia Clari em relação a sua longevidade e alegria de viver? Sim, ela tem muitos amigos, conversa bastante, joga carta e “general”, faz crochê para pessoas carentes, mora sozinha apesar de ter um filho-vizinho que a acompanha sempre. Cuida das tarefas domésticas mesmo com séria deficiência nos joelhos e articulações. Lava sua própria roupa. Mantém tudo limpo e arrumado. É vaidosa. Vive com a unha pintada e batom na boca. É mãe e avó exemplar. Ajuda no enxoval dos netos e se diverte nas festividades da família.

Quem faz as compras da casa, o rancho? A tia Clari! Ela anda de ônibus, circula por tudo. De bengala, é claro! Só não sai à noite sozinha. Dorme tarde, normalmente depois da meia-noite, para poder assistir os programas de televisão que gosta. Adora uma partidinha de futebol, vibra como se estivesse no estádio. Briga com o juiz, chama ele de… (bem, deixa pra lá!). Tia Clari viajou muito. Durante mais de 10 anos excursionou e se divertiu nas viagens que fez. Agora está um pouco “caseira” embora participe das festas, dos chás beneficentes e das reuniões que promove em seu apartamento para um bom carteado!

O que dizer para uma pessoa que completará 80 anos e que serve de exemplo de vida para todos nós? Apenas uma simples frase, porém, repleta de amor e consideração: Parabéns tia Clari! Meu amor por ti e pela família Prigol será eternizado! E a todos que lêem a minha coluna, especialmente este artigo, é bom que se diga: existem pessoas que simplesmente passam pela nossa vida, outras deixam grandes ensinamentos. A vida da tia Clari exemplifica o que Carlos Drumont de Andrade escreveu um dia:

“A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”!

O ofício de ser psicólogo (Por Patrícia Prigol)

1188258715No dia 27 de agosto, ou seja, semana passada, foi comemorado o “Dia do Psicólogo”. Data significativa se considerarmos este ofício uma vocação, um “Dom” que se revela a partir das experiências / vivências do psicólogo durante o seu desenvolvimento e formação de sua personalidade.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP), em 1999, comemorou 100 anos de Psicologia no Brasil. Entretanto, sabemos que a psicologia se desenvolveu ainda no fim do século XIX, como fruto da filosofia através das concepções sobre o homem encontradas nos grandes sábios da época como Hipócrates, Platão e Aristóteles. Sendo que o desenvolvimento posterior da psicologia, através das teorias da personalidade, se deu por meio das contribuições de inúmeros pensadores como: Tomás de Aquino, Bentham, Comte, Hobes, Kierkegaard, Nietzsche e Maquiavel, que viveram nos séculos intermediários, isto é, entre os clássicos e a nossa época, cujas idéias ainda podem ser encontradas no pensamento contemporâneo. Haja vista a grande propagação do livro e do filme “Quando Nietzsche Chorou”, revelando a outra face da psicologia e seus efeitos na relação terapêutica através das lentes do filósofo Nietzsche e do Dr. Breuer, médico e parceiro de Freud em seus estudos psicanalíticos.

Além das contribuições dos pensadores da época, devemos considerar a tradição iniciada no campo da medicina com Charcot, Janet e, principalmente, Freud, Jung e McDougall, os quais contribuíram muito no desenvolvimento desta ciência. Desde então, inúmeras descobertas foram feitas neste campo de infinito conhecimento e prática analítica.

Esta breve introdução leva-nos à compreensão da importância do nosso papel através das contribuições da psicologia que visam promover a saúde integral das pessoas, ajudando no desenvolvimento e na evolução da humanidade. Uma ciência que objetiva “entender” para “atender” as reais necessidades do nosso tempo. Nossas angustias, nossos medos, nossa própria inquietude humana nos remete a reflexão e a introspecção em busca da harmonia e do equilíbrio para nossa existência. Um eterno questionamento, ou um eterno ponto de interrogação, que nos coloca (assim deveria ser) como objeto de estudo e pesquisa para desenvolvermos novas competências e um domínio (em termos de conhecimento) das mais profundas motivações inconscientes que nos fazem cada vez mais humanos (mortais), porém, cada vez mais livres das nossas próprias amarras, trazendo-nos entendimento, sabedoria e individuação. Desta forma, podemos dizer que o principal instrumento de trabalho do psicólogo é a própria pessoa dele, com toda a sua bagagem de conhecimento (acadêmico e também de sua própria história de vida), tendo consciência de que a razão da psicologia existir está fundamentalmente entrelaçada num contínuo investimento (psíquico e afetivo) que se faz no vínculo terapêutico, na relação psicólogo-paciente, psicólogo-cliente. Esta relação, quando bem trabalhada, de modo ético e profissional, traz importante resultado (benefício) em termos de aprendizado. Neste contexto, torna-se imprescindível compreender que o principal instrumento de trabalho também deve ser o principal objeto de estudo e análise, pois quanto melhor (mais “resolvido”) o psicólogo estiver com suas questões e conflitos internos, mais bem preparado estará para ajudar o outro em suas necessidades.

Estudo, pesquisa e autoconhecimento através da análise constante a que somos submetidos, mais um “quantum” de energia e de desejo depositados em forma de investimento no nosso ofício, na nossa profissão, com certeza, resultará em ganhos reais que ultrapassam os ínfimos objetivos da cultura de massa da nossa sociedade. Uma cultura que valoriza apenas o poder e os ganhos materiais num eterno “faz-de-conta” que somos felizes. Desempenhar bem o nosso papel nos dará a certeza de que escolhemos um caminho seguro na direção da nossa própria evolução.

Compulsão à Internet – Parte 3 (Por Patrícia Prigol)

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Possibilidades de tratamento para Transtorno de Adicção à Internet em diversos países:

BRASIL: É bom lembrar que o profissional capacitado para estabelecer um diagnóstico diferencial, nestes casos, é o psiquiatra juntamente com o psicólogo ou psicoterapeuta já que, ambos, são necessários para um tratamento complementar. A associação de medicamentos, a psicoterapia e a terapia ocupacional são de extrema relevância para os casos de adicção, estejam eles relacionados à Internet ou a outro efeito adictivo. Há necessidade, também, de se constituir equipe interdisciplinar que atenda a demanda de cada caso. Respeitam-se, cientificamente, as peculiaridades de cada caso, considerando a estrutura psíquica e de personalidade do adicto, bem como seu funcionamento dinâmico visando estabelecer um plano terapêutico que venha a comportar as reais necessidades do paciente. No Brasil, Centros de Reabilitação, Comunidades Terapêuticas e Clínicas Multidisciplinares são disponibilizadas para as pessoas, além de fornecerem apoio à família do dependente, esta última, funcionando, na maioria das vezes, como co-dependente ou co-participante da disfunção apresentada em seu membro.

ALEMANHA – O país tem um acampamento para crianças que passam tempo demais na internet. O local também oferece computadores, mas seu uso é restrito. As crianças são estimuladas a passar tanto tempo quanto possível ao ar livre. A licença para uso diário de computador está limitada a 30 minutos.

CHINA – No final do ano passado, o governo chinês criou uma clínica para cuidar de pessoas viciadas em internet. Entre os métodos de tratamento aplicados estão acupuntura, meditação, esporte e apoio psicológico. Em alguns casos, são usadas agulhas de acupuntura que dão pequenos choques elétricos no paciente.

CORÉIA DO SUL – O governo se diz preocupado com o intenso uso de games on-line no país, que conta com clínicas especializadas para tratar dos doentes. O número de pessoas que procuraram ajuda por serem viciadas em games, no final de 2005, chegou a 7.649.

ESTADOS UNIDOS – Uma das primeiras clínicas para adictos em internet foi criada em 1996, pela psiquiatra Maresha Orzack, que a batizou de Clínica da Dependência dos Computadores, no hospital McLean de Harvard (Massachusetts). Além disso, foi nos Estados Unidos que surgiu o nome para o vício: Internet Addiction Disorder. Atualmente, a luta dos psicólogos americanos é conseguir incluir o problema na relação oficial de distúrbios mentais.

HOLANDA – O país tem um centro de tratamento para pessoas viciadas em games. O programa de reabilitação pode durar de quatro a oito semanas e inclui, entre outras atividades, terapia, excursões em grupo, palestras sobre comportamento, medicamentos e visitas às pessoas viciadas que não conseguem deixar suas casas.

Compulsão à Internet – Parte 2 (Por Patrícia Prigol)

Continuando o artigo publicado na segunda-feira passada:

internetEntão, o que poderíamos considerar saudável e patológico no uso da Internet? Não podemos considerar patológica a pessoa que passa 8 horas navegando pela Internet em busca de conhecimentos, trabalhando, pesquisando, etc. Também não podemos considerar patológica a pessoa que, vivendo a sós, dedique maior tempo à Internet que outra que viva em companhia da família, assim como estudantes que passam a maior parte do dia pesquisando em vésperas de prova e assim por diante. Muito mais importante que o número de horas na Internet, importa saber por que a pessoa fica tantas horas on-line, em busca do quê e com que propósito.

Contudo, segundo a Doutora Kimberly Young da Universidade de Pittsburg, criadora do Center for On-Line Addictiom, a qual estabeleceu uma série de critérios para diagnosticar o Transtorno de Adicção à Internet: “a adicção à Internet é uma dificuldade no controle de seu uso, que corresponde ao que já conhecemos como dificuldade no controle dos impulsos, e que se manifesta como um conjunto de sintomas cognitivos e de conduta. Tais sintomas são conseqüentes ao uso excessivo da Internet, o que pode acabar gerando uma distorção de seus objetivos pessoais, familiares ou profissionais”.

Assim, a adicção à Internet deve ser considerada uma adicção especificamente psicológica (ou comportamental), assim como a adicção ao sexo, às compras, ao trabalho, aos jogos, e mesmo à televisão, tendo em vista características comuns à esses tipos perda do controle, tais como eventual síndrome de abstinência, uso excessivo, forte dependência psicológica, interferência na vida cotidiana, perda de interesse por outras atividades, etc. Em resumo, tal como em outras dependências, no uso compulsivo à Internet existe uma absoluta necessidade de realizar essa atividade e, em não se levando a cabo, experimenta-se ansiedade em níveis elevados.

Supostas Conseqüências do Uso Compulsivo da Internet:

  1. Mudanças drásticas nos hábitos de vida a fim de ter mais tempo para conectar-se.
  2. Diminuição generalizada da atividade física.
  3. Descaso com a saúde própria em conseqüência da atividade na Internet.
  4. Afastamento de atividades importantes a fim de dispor de mais tempo para permanecer conectado.
  5. Privação ou importantes mudanças do sono a fim de dispor de mais tempo para permanecer conectado.
  6. Negligência a respeito da atenção à família e amigos.

Compulsão à Internet – Parte 1 (Por Patrícia Prigol)

cumpulsão a internetNão sabemos, até o momento, se os problemas apresentados em relação ao uso da internet serão clinicamente significativos no futuro ou serão irrelevantes. O que se tem observado é que seu uso (compulsivo) pode estar presente em diversas psicopatologias. Às vezes aparecendo como condição primária a essas patologias, às vezes aparecendo como condição secundária. Na condição secundária temos, por exemplo, a adicção ao jogo e ao sexo. No outro caso, como condição primária temos a possibilidade de uma nova descrição psicopatológica, ou seja Adicção à Internet!

Como não há, ainda, uma classificação diagnóstica específica para esses casos, é mais sensato utilizar a denominação “compulsão à Internet” aos usuários que, além de preencherem critérios de adicção, recorrem à Internet para jogos, bate-papo e pornografia. Uma diferenciação no comportamento do usuário da Internet se faz necessária para àqueles que, em contrapartida, fazem uso desta ferramenta como um importante meio de trabalho, além de uma vasta fonte de informação. Portanto, há a necessidade de diferenciarmos o lazer, o trabalho e a informação da adicção, propriamente dita.

Com todos esses cuidados, os partidários da classificação desta síndrome definem o dependente como a pessoa que se utiliza excessivamente da Internet gerando uma distorção de seus objetivos pessoais, familiares e/ ou profissionais. Se uma pessoa passa horas e horas conectada, negligenciando responsabilidades e necessidades familiares, pessoais e profissionais de forma reiterada, podemos estar diante de uma situação de adicção. Mesmo assim, não está claro se a compulsão à Internet deva ser considerada uma patologia própria ou se ela representa apenas um sintoma de algum outro estado emocional subjacente.

Portanto, não é de se estranhar que tenham surgido diversas hipóteses sustentando existir um uso patológico da Internet, e que tal uso, para alguns estudos, têm como resultado o desenvolvimento de transtornos emocionais ainda não classificados nos manuais diagnósticos (DSM-IV, CID-10). Para outros, o contrário, ou seja, alguns transtornos emocionais e de personalidade é que favoreceriam a adicção à Internet. Ex: pessoas que possuam determinadas patologias podem desenvolver compulsão à Internet. São os casos de:

  • Fobia Social ou Transtorno de Ansiedade Social;
  • Transtorno da Personalidade por Evitação ou Personalidade de Esquiva, e;
  • Transtorno da Personalidade Dependente.

Sabe-se, contudo, que outras psicopatologias também podem estar associadas ao uso compulsivo à Internet. Dentro da categoria das dependências sem substância, que podem ser comparadas à comportamentos compulsivos, a única reconhecida nas classificações oficiais (CID-10 e DSM-IV) é o Jogo Patológico. Entretanto, o uso por compulsão à Internet, bem como o excesso de exercício físico (Vigorexia), de trabalho, o Sexo Compulsivo, a Compulsão às Compras, a Compulsão Alimentar, alguns incluídos nos Transtornos do Controle de Impulsos, são quadros que devem ser mais bem estudados pelas importantes implicações na vida cotidiana.

Alguns autores, os mais pessimistas, citam fatores sociais e culturais envolvidos neste processo, afirmando que o acelerado avanço tecnológico representa uma enorme ameaça ao convívio social, desestimulando e inibindo o desenvolvimento de competências e habilidades no trato social e familiar, no relacionamento interpessoal, os quais deveriam ser preservados se considerarmos as conseqüências danosas para àqueles que apresentam uma tendência ao isolamento e à solidão. Um exemplo notório deste comportamento limitador se vê através das mudanças na arquitetura dos ambientes e na engenharia civil. As residências são projetadas, desenhas, de acordo com esse movimento que propõe “ilhas de convivência”. A proposta das ilhas-dormitórios se apresenta numa espécie de “moradia individualizada”, dando a impressão de completa independência que, por sua vez, alimentaria uma fantasia onipotente e um sentimento de grandiosidade, os quais não se sustentariam no plano real. Para alguns autores, essas ilhas se traduzem em grandes fortalezas, onde ninguém entra e ninguém sai, uma espécie de simbiose na relação que se estabelece com o objeto compulsivo. A sensação que seus membros podem experimentar é de máxima proteção, o que limitaria, ainda mais, o contato com a realidade (interna e externa).

Hoje encontramos, em cada espaço das residências, toda a tecnologia à disposição das pessoas. Não haveria mais motivação para buscar a conexão pessoal já que uma simples tecla poderia aparentemente sustentar tal necessidade. A “sala de estar”, por exemplo, já não se mostra atraente para a família. A disposição tecnológica surpreendentemente monta mini-residências em cada quarto que compõe a ilha de cada membro da família, o que pode dificultar a interação e a função que pais e filhos deveriam desempenhar nos vínculos estabelecidos. Esses mesmos pais passam também muitas horas no trabalho (são os chamados workaholics) além daquelas horas que o ganho de dinheiro justificaria, ou diante da televisão, no bar, etc.

Distintos estudos sustentam que o uso da Internet poderia causar um impacto negativo em nossas relações sociais habituais, em nosso espaço cotidiano, levando-nos, por exemplo, a perder parte de nosso círculo social, a diminuir o tempo de comunicação familiar ou a incrementar o sentimento de solidão (Kiesler, 1999 – Kraut, 1998). Assim sendo, alguns autores têm postulado a existência de um Transtorno de Adicção a Internet, representado pela sigla TAI (IAD, de Internet Addictiom Disorder). Também foi usado o termo Uso Compulsivo de Internet ou Uso Patológico da Internet, com a sigla UPI (PIU, de Pathological Internet Use) (Young e Rodgers, 1998). Essa nova nosografia alcançou status científico a partir de um trabalho da Dra. Kimberly Young em 1996 (Estallo Marti, 1997).

José Luis Muñoz Mora faz uma colocação interessante em seu artigo. Diz que, enquanto o álcool, a maconha e a cocaína podem ser consideradas drogas que facilitam o contacto social, a adicção à Internet seria uma patologia que se desenvolve em pessoas de vocação solitária. Acreditamos que seriam, além de pessoas solitárias, também não desejosas do convívio interpessoal. Trata-se de uma opção de postura social, compensada e gratificada pela Internet, pois são comuns os traços de introversão na personalidade de informáticos compulsivos. Assim, a socialização e a comunicação interpessoal virtuais parecem constituir os elementos básicos do efeito adictivo da Internet para um grande número de internautas, manifestando-se através do intercambio dos chats, do correio eletrônico, participação em grupos de discussão, conversações em tempo real. Para outro grupo, a busca de prazeres sexuais negados pela realidade concreta tem sido o ponto chave, aparecendo sob a forma da busca continuada e excessiva de material erótico e pornográfico, podendo resultar em importantes disfunções sexuais.

Na segunda-feira da semana que vêm, continuaremos a explorar este assunto.

Não sabemos, até o momento, se os problemas apresentados em relação ao uso da Internet serão clinicamente significativos no futuro ou se serão irrelevantes. O que se tem observado é que seu uso (compulsivo) pode estar presente em diversas psicopatologias. Às vezes aparecendo como condição primária à essas patologias, às vezes aparecendo como condição secundária. Na condição secundária temos, por exemplo, a adicção ao jogo e ao sexo. No outro caso, como condição primária ao comportamento compulsivo, temos a possibilidade de uma nova descrição psicopatológica da Adicção à Internet.

Um Brinde para ir além!

Este é o título de uma matéria publicada pela Revista Psique e escrita pelo psicólogo e pedagogo Josef David Yaari, presidente do Instituto Pro-Líbera, entidade voltada para que cada pessoa se libere das amarras das ideologias ou doutrinas por meio de seminários, encontros e cursos, além de dar apoio a famílias e grupos operativos.

jumpyz0Assim dei início a uma profunda e impactante leitura, ecoando dentro de mim as experiências vividas na clínica e na minha vida pessoal. Houve ressonância! Era como se o colega estivesse extraindo o meu pensar e o meu sentir a respeito de assuntos e conteúdos polêmicos, porém, extremamente pontuais. Afirmar, por exemplo, que o ser humano vive em busca do “algo a mais” ou de uma motivação profunda que daria sentido para sua vida, não é nenhuma novidade. Mas estabelecer uma relação entre o prazer do sexo, do estômago e dos jogos de poder com a busca do sentido real que “abriria os canais para os diversos universos, os diversos patamares de nossa consciência, – existentes, mas não perceptíveis ao senso comum ou à cultura de massa” – foi realmente imprescindível para que eu pudesse compartilhar com vocês esta pretensa reflexão.

Podemos dizer que estamos vivendo uma fase de transição diante desse movimento social que busca, a qualquer custo, o prazer efêmero das sensações e do sentimentalismo inúteis para a nossa evolução. Esta fase transitória nos remete à transcendência, que é a capacidade de superar os limites normais, o que é esperado por meio desses jogos de prazer e de poder. Neste sentido, o autor inicia sua matéria com alguns questionamentos surpreendentemente intrigantes:

Afinal, vivemos pra quê? O que, de fato, é a nossa mais profunda motivação? Para que e para onde se move a nossa alma? É verdade que o que queremos, no fundo de tudo, é o prazer e o poder?

Neste sentido, percebemos que ainda se faz necessário o uso de determinados “rituais de passagem” para transcendermos a esses limites, do que é perceptível aos olhos do corpo físico. Rituais que incluem não somente as tradições e as chamadas “religiões”, mas toda e qualquer crença ou ideologia que convida as pessoas a experimentarem uma “morte simbólica”. É a morte do desejo pelo desejo, do sexo pelo sexo, da comida pela comida, do poder pelo poder.

Quando experimentamos o gozo do desejo efêmero e inútil, percebemos que nosso esforço foi em vão porque, em seguida, experimentamos uma espécie de “vazio” ou a “falta de”. Uma experiência de morte provocada pela falência de um outro desejo, mais profundo, mais intenso, mais real. Como disse o psicólogo Josef: “É o encontro com Thanatos (na mitologia grega, o deus da Morte) depois de viver o Eros (na mitologia grega, o deus da Vida) em todos os aspectos possíveis. Exatamente por isso ocorrem os rituais da morte simbólica nas tradições, no sentido de provocar o desapego, a possibilidade de superar suas próprias amarras”. Quando nos libertamos de tudo aquilo que, de alguma forma, nos aprisiona, das expectativas que tentamos corresponder para pertencer a esta ou aquela “tribo” (ou tradição), experimentamos o gozo real da liberdade conquistada por um processo de individuação. É quando encontramos a nós mesmos, transcendendo o mundo do sensacionalismo ou das emoções baratas e supérfluas que, muitas vezes, estão à serviço de organizações perversas que manipulam e controlam o nosso “querer”, a nossa liberdade de expressão e de escolha.

Assim, de forma contundente, o psicólogo afirma: “… em todos os nossos atos, seja aparentemente pelo poder, seja pelo prazer, estamos querendo exercer uma identidade que se supera e, daí, compartilhar o que conquistamos”.

Ou seja, celebrar nossas conquistas é poder tornar-se um SER único, integrado, indivisível, e, então, incorruptível!

A Fragilidade dos Laços Humanos

happiness_by_srebrinaPrecisamos entender os valores humanos vigentes em nossa sociedade para compreender a fragilidade dos laços sociais. Neste sentido, vou me apropriar do conceito que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman criou para definir o momento que atravessamos. Uma sociedade neoliberal, pós-moderna e, pasme, segundo Bauman, uma sociedade “líquida”. Vivemos, portanto, a liquidez nos laços sociais e a, conseqüente, superficialidade nas relações, denunciando um novo movimento que declara a irrecusável busca de sentido, ao mesmo tempo em que “insinua” a possibilidade de construção de uma nova identidade social.

Os movimentos comportamentais, nesse novo período, simbolizam a proposta contida na instauração da modernidade que resultou nesta “liquefação dos vínculos”. Somos resultado dos efeitos da globalização que contribuíram para este novo cenário.

A professora de filosofia contemporânea Scarlett Marton, da Universidade de São Paulo, em entrevista para a Revista Cláudia, em junho do corrente ano, afirmou: “Vivemos um período de relativismo, não temos princípios tão firmes como os que existiram na sociedade vitoriana do século 19 ou mesmo na nossa sociedade das primeiras décadas do século 20. A idéia de que é preciso ter uma visão de conjunto do processo histórico e da sociedade, uma concepção do homem e da sua inserção social, histórica e cultural, tudo isso está caindo em desuso e sendo substituído por algo fragmentário”.

Também fracassa toda e qualquer tentativa de aprofundar relações assumindo compromissos mais duradouros. Como bem retrata Bauman, num de seus livros, O Amor Líquido: “(…) é como procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro”. Somos levados por esta cultura que apresenta um MUNDO INSTANTÂNEO e um “manual de instruções” ditando a regra principal: “é preciso estar pronto para outra”, e a qualquer momento.

Para “pertencer” e corresponder a esta nova ordem social, é preciso se ligar, se conectar com o mundo, mas é imprescindível cortar dependência. Deve-se amar, porém sem muitas expectativas, pois elas podem rapidamente transformar um bom namoro num sufoco, numa prisão. Um relacionamento intenso pode deixar a vida um inferno. Entretanto, nunca houve tanta procura em relacionar-se. Bauman vê homens e mulheres numa verdadeira trincheira sem saber como sair dela e, o que é ainda mais dramático, sem reconhecer com clareza se querem sair ou permanecer nela. Por isso, movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos com a esperança mantida à custa de um esforço considerável, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor. Ele ainda acrescenta: “(…) os habitantes circulando pelas conexões líquidas da pós-modernidade são tagarelas à distância, mas, assim que entram em casa, fecham-se em seus quartos e ligam a televisão. A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão parece uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum. Hoje, estamos mais bem aparelhados para disfarçar nossos medos antigos. Nesta sociedade líquida, tememos o que em qualquer período da trajetória humana sempre foi vivido como uma ameaça: o desejo e o amor por outra pessoa.”

Se por um lado vivemos a era do individualismo, por outro, temos a chance de transformar este cenário, podendo estabelecer relações mais construtivas, com flexibilidade e liberdade do SER. Avançar, no sentido da evolução do homem, não significa deixar “a fila andar”, mas rever conceitos e valores trazidos nesta possível mudança de mentalidade.

Um dos principais Transtornos do Humor: o Transtorno Bipolar

bipolarAntigamente era chamado de Psicose Maníaco-Depressiva (PMD). Hoje, devido aos avanços da psiquiatria, a Bipolaridade é classificada como um dos principais transtornos do humor, podendo ser denominada de Transtorno Bipolar ou, comumente, de Transtorno Afetivo Bipolar. Assim, identificamos os sintomas na pessoa que experimenta mudanças extremas no seu estado de humor, nas cognições e no comportamento. Este transtorno caracteriza-se por episódios alternados de depressão e mania (euforia), recorrentes.

É a intensidade e a severidade dos sintomas presentes no transtorno que o diferencia das tão comuns “mudanças de humor” pelas quais passamos quase todos os dias.

Alguns sintomas comuns na fase depressiva do Transtorno Bipolar:

  • Diminuição acentuada do interesse ou do prazer.
  • Sensação de esgotamento e fadiga constante (letargia e prostração).
  • Alterações na memória (esquecimentos), na atenção e concentração.
  • Alterações de peso e apetite.
  • Insônia ou hipersônia (sono excessivo).
  • Sentir-se sem valor ou culpa excessiva por perceber que seu ritmo diminui consideravelmente.

Alguns sintomas comuns na fase maníaca (da euforia):

  • Sensação de bem-estar e energia em excesso.
  • É comum a presença de várias idéias e pensamentos que “invadem a mente”, levando a um aumento de ações e até mesmo de novos empreendimentos.
  • Envolvimento excessivo em atividades que implicam em risco.
  • Envolvimento excessivo no trabalho.
  • Diminuição da necessidade de dormir (pode passar a noite acordado e trabalhar no dia seguinte sem sentir-se fadigado).
  • Auto-estima e grandiosidade excessivas.
  • Pode apresentar episódios de compulsão: à compras, ao sexo, à alimentação, ao esporte, às drogas.
  • É freqüente o uso de bebidas alcoólicas na tentativa de aliviar ou minimizar os sintomas.

O chamado Transtorno Bipolar pode ser incluído em duas categorias:

  • O Transtorno Bipolar do Tipo I, no qual acontecem episódios maníacos (de euforia) graves que se caracterizam, por vezes, pela presença de sintomas psicóticos, necessidade de hospitalização ou prejuízo acentuado no convívio social ou ocupacional e familiar.
  • O Transtorno Bipolar Tipo II, no qual os episódios depressivos se alternam apenas com hipomanias, ou seja, com episódios eufóricos leves.

A causa do Transtorno Bipolar ainda não é conhecida. Ele é considerado um transtorno de caráter multifatorial. Contudo, sabe-se que existe uma predisposição biológica (genética) que é herdada, à qual são somados fatores ambientais, resultando no aparecimento dos sintomas.

O diagnóstico do Transtorno Bipolar é feito por especialistas (psiquiatras) e no tratamento são usados estabilizadores de humor, antidepressivos e neurolépticos (antipsicóticos). A utilização destes medicamentos e a combinação dos mesmos são feitas de acordo com as necessidades de cada caso e a decisão é tomada em conjunto, utilizando-se de entrevista clínica e, às vezes, da presença de familiares, podendo incluir a avaliação psicológica em casos de atendimento por profissional desta área.

Além do tratamento com medicamentos, recomenda-se psicoterapia, pois inúmeras pesquisas comprovam a eficácia nesta associação. Geralmente o transtorno bipolar dura a vida toda, sendo que o paciente pode obter alta nos processos psicoterápicos, contudo, não costuma obter alta da medicação. Justifica-se tal prescrição devido aos fatores biológicos (genéticos e hereditários) e conseqüente disfunção bioquímica. Se o transtorno não for devidamente tratado, sérios prejuízos podem ocorrer, nos vínculos familiares, na vida social e na estabilidade econômica do indivíduo. Uma vez que não existem meios para evitar que o transtorno se desenvolva, quanto antes ele for identificado, maiores serão as chances de minimizar estes prejuízos e até mesmo de controlá-los.

Sair do Labirinto

LabirintoNa mesma medida que desejamos intensamente amar tememos, desde sempre, o contraponto dessa experiência: a rejeição e o abandono. O sociólogo polonês, Zigmunt Bauman, tentou explicar o momento que atravessamos nesta “sociedade líquida” que propõe a superficialidade dos vínculos. Contudo, o filósofo francês, Pierre Lévy, nos mostra outra saída para esta ambigüidade. Ele nos leva para uma fascinante viajem que permite reconhecer o outro lado da nossa alma, revelando a verdade nunca antes dita com tanta maestria:

“Cedo ou tarde será preciso enfrentar o seu dragão. Cada um de nós tem na vida um monstro diferente. O que parece terrível para uns, para outros nada mais é do que um incômodo passageiro. Mas para todos existe um “grande medo”, um Minotauro no centro de seu labirinto interior, uma besta imunda a ostentar nosso rosto.

Um dia será preciso lutar por si, por sua própria causa, e não por alguma finalidade elevada, social, política, humanitária, espiritual ou qual­quer outra. Decida-se de vez a enfrentar o que o impede de viver plenamente. Guerreie por sua vida. Lute contra o seu grande medo. Hoje é um bom dia para aceitar o combate, parar de fugir, lutar com o que mais o aterroriza. Você entende que as pessoas e as situações que o deixam mal são meros disfarces desse medo, as máscaras do dragão que o habita?

Toda vida contém uma descida aos infernos. O labirinto é uma representação clássica do mundo infernal (o rei Minos era juiz dos infernos), mas também da matriz. Como sair do labirinto? Como retornar do país dos mortos? Como ressuscitar? Ou renascer?

Teseu, como todos os heróis, combate o monstro antes de unir-se à princesa. A princesa, ou Ariadne, é seu lado feminino, sua anima, sua parte emotiva e terna. Foi porque se uniu à sua parte feminina por um fio, porque se uniu consigo mesmo que Teseu pôde vencer seu medo (o Minotauro) e tornar-se livre (sair do labirinto). Ele está sufici­entemente seguro de sua identidade sexual para aceitar seu lado femi­nino. É a energia da união consigo, do encontro consigo mesmo (o fio que une Ariadne a Teseu) que lhe permite tornar-se livre. Tornar-se livre, tornar-se uno e vencer o próprio medo são a mesma e única coisa. Ariadne, como todas as companheiras dos heróis, libera seu lado masculino, sua força e coragem. O herói que libera a princesa aprisionada emancipa seu próprio lado feminino. O dragão é sempre o medo, o medo de ser si mesmo… ou de deixar de sê-lo se nos liberarmos. O argumento que se apodera de nosso ser e no qual nos aprisio­namos: eis o nosso dragão. Enfrentar o dragão é reencontrar a situa­ção, exatamente a situação em que a armadilha se acomodou. Retornar ao instante da queda, ao lugar onde perdemos a liberdade. A frase que nos condenou. A idade em que perdemos a visão. Deve­mos reencontrar esse instante de que queremos fugir com todas as nossas forças. E uma vez lá, será preciso reviver o nosso papel, mas, desta vez, saindo da armadilha por cima. Se o acontecimento origi­nal tiver provocado o medo ou o orgulho, devemos nos desprender com plenitude ou humildade. Sair com inocência se tiver sido a cul­pa a origem da situação. Herói, princesa e dragão são a mesma e única pessoa.

Só consigo apreciar a mulher que há em você, porque minha di­mensão feminina é capaz de reconhecê-la. Só sou capaz de amar a mulher que há em você, porque amo a mulher que há em mim. Você só consegue amar o homem plenamente homem que há em mim porque tem em si essa dimensão de virilidade assumida, plenamente realizada, amada. Então você é capaz de amar o homem que sou, sem invejar minha virilidade, sem temer minha estranheza. Da mes­ma forma, meu amor por você não está misturado com nenhuma inveja de sua feminilidade triunfante, nenhum medo, porque essa feminilidade também está em mim. O amor é a relação recíproca das almas e de suas diferenças. Uma “identidade” que não considera as identidades diferentes que encontra é uma identidade morta, reativa, odiosa, impotente. Amar é despertar o outro que há em si. Abandone para sempre as opiniões que os outros têm de você. Afaste-se completamente das imagens e representações que você faz de si mesmo. Abandone totalmente qualquer idéia de mérito ou de culpa, de inferioridade ou de superioridade. Não há nada a “pro­var” nem para si nem para os outros. Pare de perguntar quem você é. A identidade é uma sujeição: você só é manipulado porque forjou uma imagem de si mesmo. A identidade é uma prisão”.

Saia do labirinto da identidade. “Eu existo” é o título mais elevado. Tudo o que lhe acrescentar­mos o depreciará.