Sair do Labirinto

LabirintoNa mesma medida que desejamos intensamente amar tememos, desde sempre, o contraponto dessa experiência: a rejeição e o abandono. O sociólogo polonês, Zigmunt Bauman, tentou explicar o momento que atravessamos nesta “sociedade líquida” que propõe a superficialidade dos vínculos. Contudo, o filósofo francês, Pierre Lévy, nos mostra outra saída para esta ambigüidade. Ele nos leva para uma fascinante viajem que permite reconhecer o outro lado da nossa alma, revelando a verdade nunca antes dita com tanta maestria:

“Cedo ou tarde será preciso enfrentar o seu dragão. Cada um de nós tem na vida um monstro diferente. O que parece terrível para uns, para outros nada mais é do que um incômodo passageiro. Mas para todos existe um “grande medo”, um Minotauro no centro de seu labirinto interior, uma besta imunda a ostentar nosso rosto.

Um dia será preciso lutar por si, por sua própria causa, e não por alguma finalidade elevada, social, política, humanitária, espiritual ou qual­quer outra. Decida-se de vez a enfrentar o que o impede de viver plenamente. Guerreie por sua vida. Lute contra o seu grande medo. Hoje é um bom dia para aceitar o combate, parar de fugir, lutar com o que mais o aterroriza. Você entende que as pessoas e as situações que o deixam mal são meros disfarces desse medo, as máscaras do dragão que o habita?

Toda vida contém uma descida aos infernos. O labirinto é uma representação clássica do mundo infernal (o rei Minos era juiz dos infernos), mas também da matriz. Como sair do labirinto? Como retornar do país dos mortos? Como ressuscitar? Ou renascer?

Teseu, como todos os heróis, combate o monstro antes de unir-se à princesa. A princesa, ou Ariadne, é seu lado feminino, sua anima, sua parte emotiva e terna. Foi porque se uniu à sua parte feminina por um fio, porque se uniu consigo mesmo que Teseu pôde vencer seu medo (o Minotauro) e tornar-se livre (sair do labirinto). Ele está sufici­entemente seguro de sua identidade sexual para aceitar seu lado femi­nino. É a energia da união consigo, do encontro consigo mesmo (o fio que une Ariadne a Teseu) que lhe permite tornar-se livre. Tornar-se livre, tornar-se uno e vencer o próprio medo são a mesma e única coisa. Ariadne, como todas as companheiras dos heróis, libera seu lado masculino, sua força e coragem. O herói que libera a princesa aprisionada emancipa seu próprio lado feminino. O dragão é sempre o medo, o medo de ser si mesmo… ou de deixar de sê-lo se nos liberarmos. O argumento que se apodera de nosso ser e no qual nos aprisio­namos: eis o nosso dragão. Enfrentar o dragão é reencontrar a situa­ção, exatamente a situação em que a armadilha se acomodou. Retornar ao instante da queda, ao lugar onde perdemos a liberdade. A frase que nos condenou. A idade em que perdemos a visão. Deve­mos reencontrar esse instante de que queremos fugir com todas as nossas forças. E uma vez lá, será preciso reviver o nosso papel, mas, desta vez, saindo da armadilha por cima. Se o acontecimento origi­nal tiver provocado o medo ou o orgulho, devemos nos desprender com plenitude ou humildade. Sair com inocência se tiver sido a cul­pa a origem da situação. Herói, princesa e dragão são a mesma e única pessoa.

Só consigo apreciar a mulher que há em você, porque minha di­mensão feminina é capaz de reconhecê-la. Só sou capaz de amar a mulher que há em você, porque amo a mulher que há em mim. Você só consegue amar o homem plenamente homem que há em mim porque tem em si essa dimensão de virilidade assumida, plenamente realizada, amada. Então você é capaz de amar o homem que sou, sem invejar minha virilidade, sem temer minha estranheza. Da mes­ma forma, meu amor por você não está misturado com nenhuma inveja de sua feminilidade triunfante, nenhum medo, porque essa feminilidade também está em mim. O amor é a relação recíproca das almas e de suas diferenças. Uma “identidade” que não considera as identidades diferentes que encontra é uma identidade morta, reativa, odiosa, impotente. Amar é despertar o outro que há em si. Abandone para sempre as opiniões que os outros têm de você. Afaste-se completamente das imagens e representações que você faz de si mesmo. Abandone totalmente qualquer idéia de mérito ou de culpa, de inferioridade ou de superioridade. Não há nada a “pro­var” nem para si nem para os outros. Pare de perguntar quem você é. A identidade é uma sujeição: você só é manipulado porque forjou uma imagem de si mesmo. A identidade é uma prisão”.

Saia do labirinto da identidade. “Eu existo” é o título mais elevado. Tudo o que lhe acrescentar­mos o depreciará.

Portadores de necessidades especiais

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“Portadores de Necessidades Especiais” são pessoas que apresentam limitações importantes em seu desenvolvimento caracterizando um diagnóstico específico. São classificados como tal segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-IV) ou ainda outros manuais de diagnóstico para determinados transtornos do desenvolvimento. A busca (sem objetivos claros e consistentes) por um diagnóstico específico pode, muitas vezes, reforçar ainda mais o processo de exclusão dos PNEs (Portadores de Necessidades Especiais). Considerados, por uma parcela da população, “anormais” ou deficitários, são discriminados permanecendo à margem de uma sociedade preconceituosa e extremamente competitiva.

Se considerarmos o contexto político, social e econômico do nosso país, numa sociedade capitalista e, portanto, excludente, não teríamos que rever tais conceitos? O “diferente” não deveria ser aquele ou aquela que exclui e marginaliza seus membros? Não seríamos todos iguais pela condição humana a que somos submetidos? Quem é, então, o “diferente” ou o Portador de Necessidades Especiais? Não somos, nós, seres humanos imperfeitos, incompletos e mortais que poder-se-ia classificar, então, como sendo Portadores de Necessidades Especiais?

Todas essas questões servem para fazer um alerta especial. Não apenas à sociedade (a qual está realmente deficitária em muitos aspectos), mas fundamentalmente aos profissionais que trabalham diretamente com essa realidade. Seja qual for a área de atuação, profissionais “liberais” (autônomos), empresários ou administradores de empresas, juramos atender a população com vistas à inclusão e não à exclusão.

O problema é que pertencemos a este mesmo universo, de uma sociedade preconceituosa e mal informada. Corremos um grande risco, de cair na armadilha das nossas próprias crenças, credos e pré conceitos, buscando classificar e rotular pessoas para reforçar ainda mais suas dificuldades. Quem já não acompanhou a história de superação de tantos “deficientes”, com alguma “anomalia” importante, os quais foram além dos seus próprios limites? Não são estas pessoas que servem de exemplo de superação para todos aqueles que, em tese, teriam uma condição melhor?

De Porta em Porta

O filme “De Porta em Porta” mostra bem essa realidade. Um homem com uma deficiência mental importante, além de outras limitações, não se deixou abater pelo preconceito social e foi muito além de todas as expectativas ou prognósticos estabelecidos. Entendo que o diagnóstico deve servir apenas para conhecermos parte da realidade do paciente, para também conhecermos seus pontos fortes e suas dificuldades, sempre com vistas ao planejamento de ações terapêuticas ou à determinação de um plano terapêutico que possa contemplar as suas reais necessidades.

Contudo, dependendo da “deficiência” do profissional da área da saúde, poder-se-á determinar um único caminho para esses pacientes, ao invés de acreditar que a superação faz parte da nossa existência e que todos têm condições, sim, de reverter suas próprias dificuldades, buscando caminhos e rotas possíveis.

Uma questão de escolha. (Por Patrícia Prigol)

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Freqüentemente costumo ser questionada a respeito da existência de problemas na vida das pessoas. Manifestam a necessidade de compreender o porquê do seu sofrimento. Muitas chegam a acreditar que é algo do destino. Que foram “escolhidas” de alguma forma por não terem sorte na vida ou porque os outros não foram tão bons ou justos como “deveriam” ou, ainda, porque sua infância foi interrompida de maneira traumática.
Entre tantas justificativas, ainda prefiro aquela que se encontra no plano “real”, aquela que a realidade vem comprovar a sua existência: de que somos, todos, responsáveis pelo nosso sucesso e pelo nosso fracasso também. Tudo depende das nossas escolhas.
O pensamento contrário afirma ser mais fácil buscarmos um culpado para justificar nossas faltas. Talvez seja melhor acreditarmos que o “outro” é responsável por tudo que acontece em nossa vida. Seguindo com esta crença estaremos buscando num “outro” um sentido para nossa existência, uma direção. Estabelecemos desta forma, uma relação de dependência e submissão, a qual fortalece a crença de que não somos capazes de guiarmos nossa vida. Neste sentido, estaríamos fadados ao fracasso.
Acredito que mesmo em situações muito difíceis, incluindo as fatalidades da vida, poderemos superar as dificuldades, aprendendo com a dor e fazendo escolhas com dignidade e respeito às nossas necessidades. Martha Medeiros, escritora renomada, publicou o livro intitulado “O Divã”, o qual originou o filme que se encontra em cartaz. Ela aborda esta questão com maestria, com extrema competência e prova que a felicidade depende do modo como enfrentamos nossas mazelas.
Venho, com o passar do tempo, em minha profissão e em minha própria vida, pesquisando o que levaria as pessoas a fazer exatamente o contrário de tudo àquilo que poderia lhes trazer maior qualidade de vida. Lembro-me da história de um homem de oitenta e poucos anos que demonstrava muita vitalidade, participando de maratonas, preparando-se fisicamente e psicologicamente para os campeonatos. Ao ser indagado por um jornalista sobre o que o levaria a agir desta forma, contrariando todas as probabilidades relacionadas à sua idade, ele respondeu: “Faço exatamente o contrário do que a minha mente me pede pra fazer. Se ela pede para ficar parado na frente da TV ou se pede para permanecer dormindo mais do que o necessário, logo, coloco o meu calção, o meu tênis e saio para correr. Faço exatamente o contrário”. Eu diria que esta foi uma das alternativas encontradas por esse homem que, sabiamente, driblou as armadilhas de sua mente que – de forma ardilosa e astuta – tentaria levá-lo a acreditar que nada mais lhe restaria – neste momento de sua vida – a não ser esperar sua morte chegar.
Nossa vida é da nossa responsabilidade. Precisamos, apenas, fazer a escolha mais adequada.

A influência das emoções na produção das doenças

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Para a Psicologia e para a Psicossomática (ciência que estuda os efeitos do psiquismo e das emoções no surgimento das doenças) este assunto já não é desconhecido, nem tampouco surpreende diante dos resultados obtidos nas pesquisas realizadas. Contudo, e não faz tanto tempo assim, observamos a resistência de muitos na aceitação dessa realidade, de que as emoções estão diretamente ligadas à manifestação das doenças.
O que importa, entretanto, é alertarmos a população sobre os recursos disponíveis para que cada pessoa possa acessar sua “arma de defesa imunológica” contra a legião de bactérias e vírus que provocam doenças no organismo.
Por isso torna-se fundamental garantir a informação e a orientação, as quais podem contribuir na prevenção de doenças e no aumento da qualidade de vida da população:

  • As emoções sejam elas positivas ou negativas, são transmitidas a todas as células do corpo humano. O cérebro conta com mensageiros que levam aos órgãos os nossos sentimentos. São compostos químicos (os neurotransmissores) que reproduzem em códigos todas as nossas emoções. Assim, cada célula retrata o que estamos sentindo e como estamos vivendo.
  • Todo mundo hoje sabe o que faz bem para a saúde. Por que é tão difícil seguir essas orientações? Todas as recomendações médicas são engolidas por nossos complexos emocionais. Porque há um sofrimento emocional muito maior do que o sofrimento físico. E nós não consideramos o sofrimento emocional, sempre deixado em segundo lugar. Há uma profunda ignorância na nossa cultura do quanto as emoções comandam a nossa vida. Aprendemos na escola a escovar os dentes, a ter higiene, mas nenhuma escola ensina a lidar com os conflitos emocionais, a prestar atenção nos sonhos e como funcionamos psicologicamente.
  • A idéia de que as emoções negativas, consideradas hostis, aquelas mais comumente perceptíveis nas pessoas que são extremamente apressadas, irritadiças, pouco amorosas, que tomam decisões somente na base do certo e do errado, que não dão prioridade aos seus afetos, são muito mais propensas ao infarto, mesmo tendo os triglicérides em níveis excelentes, o colesterol zerado e uma ótima forma física. E isto já está comprovado cientificamente.

O alerta que se faz aos profissionais da área da saúde e a toda população pode ser explicitado através dessa frase: “É importante que todo profissional da área da saúde veja seu paciente como um indivíduo composto de um total – corpo e alma – e que suas emoções estão diretamente relacionadas às doenças que aparecem. Do contrário ele não vai ajudar na cura do paciente. Ele simplesmente vai funcionar como um bombeiro, que apaga o incêndio, mas não trabalha na fiação que está em curto-circuito”.
Isto serve para as organizações (empresas e demais instituições) que também assumem (assim deveriam) um compromisso com a saúde do trabalhador, com os aspectos de psicohigiene que deveriam fazer parte das políticas implementadas na coletividade, no intuito de assegurar os resultados contratados.

Transitoriedade: Palavra-Chave na atualidade

 

O tema apresentado no artigo “Responsabilidade Social” teve, como objetivo, a introdução de um novo conceito na atualidade: o da “transitoriedade nas relações”. Um movimento natural que se integra às novas exigências do mundo contemporâneo. Nossa capacidade de adaptação frente a essas exigências implica em posicionamento firme diante dos desafios que a vida nos apresenta e, principalmente, diante de cada decisão que tomamos.

A mudança de mentalidade, a qual me refiro, diz respeito às competências e habilidades que ainda precisamos desenvolver para nos adaptar às exigências que resultam da transitoriedade nas relações que estabelecemos. A única certeza que temos é que toda e qualquer relação, seja no trabalho ou na vida pessoal, poderá ser interrompida em seu percurso ou modificada em suas bases, resultando em novos caminhos ou novas diretrizes. Sabe-se, contudo, que essa demanda exigirá uma nova postura diante dos acontecimentos:

  • Renunciar às certezas do passado: Tudo que considerávamos ser imutável, e que trazíamos (boa parte) em nossa bagagem cultural. Na atualidade: “Tudo muda, nada é estático”.
  • Abrir-se, contudo, para as novas possibilidades de relacionamento: Significa enfrentar e aceitar a realidade de uma sociedade em transformação e tudo que a acompanha nesta nova fase, incluindo a diversidade de conceitos e comportamentos. Nunca falamos tanto em “inclusão” como agora. A inclusão do novo, do “diferente”, de caminhos alternativos para se chegar ao mesmo fim.
  • Parar de tentar eternizar as relações (sair do processo da idealização): Vivemos tempos de transitoriedade. É preciso sair da idealização que alimenta uma fantasia onipotente baseada numa pseudo-realidade para construir uma sociedade que se fundamenta no “real”. Significa sair do discurso e das identidades (representações sociais) para adotar uma postura de maior comprometimento e responsabilidade social.

Para desenvolver essas competências precisamos nos comprometer (nos envolver) com o processo de evolução contínua de uma nova sociedade que se reinventa a cada momento. O importante é tentarmos extrair o que há de melhor nesse processo. Aprender com os erros ou tropeços é essencial para nossa evolução. Pessoas de sucesso estão abertas para o “novo”, para as novas possibilidades. Elas assumem os riscos naturais que a vida apresenta, mantendo o foco no resultado de suas experiências.

Vítimas de si mesmo: uma escolha ou um destino?

Apesar da expressiva demanda para psicoterapia, nem todas as pessoas conseguem “finalizar” seu tratamento. Alguns pacientes tornam-se vítimas de si mesmo. Utilizo o termo “vitimização” com base na experiência profissional em relação a pacientes que se vêem vítimas de sua trajetória de vida (de suas próprias escolhas).

As “vítimas” geralmente apresentam um baixo limiar à frustração e pouca persistência na resolução de seus conflitos, o que as levam, invariavelmente, a interromper o tratamento antes mesmo de iniciá-lo. Minha experiência revela claramente quando o paciente tende a interromper seu tratamento já nas primeiras sessões. Ou seja, mesmo quando não apresenta nenhum transtorno psicoafetivo importante ou sintomas depressivos que possam revelar fatores orgânicos preponderantes, ou, ainda, um transtorno de personalidade que o levaria sistematicamente as tentativas de sabotagem no tratamento, a “vítima de si mesmo” geralmente se mostra apática e resistente, principalmente quando se trata de uma abordagem terapêutica que exige sua participação e um considerável investimento no alcance dos objetivos contratados.

Penso que os fatores culturais possam, também, contribuir consideravelmente para este quadro sintomático. Vivemos a era das respostas rápidas, extremamente objetivas e, muitas vezes, supérfluas, sem embasamento, mas que podem produzir um efeito acalentador. Mesmo sendo momentâneo, ou instantâneo este movimento leva as pessoas a buscarem “tratamentos” que prometem a cura para as dores da alma com o mínimo de esforço possível. Algumas práticas, inclusive, propõem às pessoas um pensamento mágico “levando-as” a acreditar que basta pensar a solução e, esta, virá como num passe de mágica.

Nunca vivemos tantas ofertas de cura como agora. Nessa sociedade líquida – denominação criada e utilizada pelo sociólogo polonês Zigmunt Bauman – a prioridade é a instantaneidade e a conseqüente liquidez dos laços sociais, tornando as relações efêmeras e superficiais.

Parece que estamos retornando a uma outra fase, já vivida. Na antiguidade, antes dos cientistas fazerem as suas primeiras grandes descobertas, no campo da medicina e depois em outras áreas, recorria-se aos curandeiros e às religiões na tentativa de curar as enfermidades, de aliviar dores físicas e emocionais. Depois, a ciência, na sua evolução, apresentou inúmeras ferramentas de trabalho e recursos imprescindíveis para a cura de determinadas doenças e males da humanidade através de uma tecnologia avançada que tomou conta do mundo e que, na atualidade, consegue oferecer tratamentos de grande relevância para a sociedade. Doenças que não tinham nenhuma chance de remissão, hoje, se mostram de fácil resolução para a medicina. Outras são controladas por medicamentos de ponta e tratamentos altamente eficazes.

Na área da Psicologia não foi diferente. Evoluímos e continuamos nesse processo de evolução. Porém, ainda me surpreendo com a oferta apresentada nesta grande “Indústria da Cura” que propõe tratamentos milagrosos. Àqueles que você lê o anúncio da propaganda, que promete resolver todos os seus problemas sem que você tenha o mínimo de participação no processo de melhoramento e de evolução. Infelizmente, através da disseminação deste pensamento mágico, nossa sociedade acaba por alimentar um “falso self”, uma falsa identidade.

Assim, as “vítimas de si mesmo” se vêem à margem da evolução do conhecimento e da tecnologia. Alguns, com escassos recursos internos, não encontram outra saída que não seja ser “apanhado” nessa teia do encantamento, da sedução e da manipulação. Aliás, característica marcante de uma sociedade perversa como a nossa que propõe a ilusão e a conseqüente negação da realidade como uma saída plausível para todos os males da humanidade. Talvez seja por isso que muita gente (muita gente mesmo!) se mata em tantas Guerras Santas. Talvez porque não seja possível manter os olhos (da alma) abertos por muito tempo.

Resistindo às mudanças

As diferenças culturais, em outras cidades ou localidades, podem contribuir de maneira positiva ou negativa no processo de adaptação a um novo ambiente. Tais diferenças são determinadas pelo contexto histórico-social de cada localidade.

Em se tratando dos grandes centros, das metrópoles, percebe-se uma forte tendência nas pessoas a se tornarem mais adaptativas às características da região, desenvolvendo, contudo, maior flexibilidade em relação às possíveis mudanças e tendências na contemporaneidade. A alta competitividade nos grandes centros do país exige das pessoas algumas características de personalidade que as tornam empreendedoras, fazendo com que a criatividade e a ousadia (capacidade de ultrapassar limites conhecidos) sejam revertidas em ações que possam agregar constantemente novos valores à sociedade.

Confesso que a minha experiência numa grande cidade trouxe um aprendizado enorme na minha vida e na minha profissão. Retornar a cidade natal não foi nada fácil depois de ter vivido numa cultura que permitia e incentivava o “fazer diferente”, tornando os conhecimentos da Psicologia mais próximos da realidade local. Tudo isso parece ter sido, no mínimo, altamente motivador. E, de fato, foi isso que aconteceu.

Ao retornar, pude perceber que nossa formação acadêmica sempre esteve voltada para os limites dos consultórios e clínicas de Psicologia. Tanto a formação acadêmica (enquanto orientação profissional) quanto à cultura regional, nos levaram para dentro de um mundo limitado pelas atividades desenvolvidas no espaço “psi” ocupado pelos profissionais da área. Claro que muitos colegas discordam desta visão, pois dizem que trabalhando o “indivíduo” atingimos também um universo maior: as famílias e, conseqüentemente, a sociedade. Posso até concordar – em parte – com esta visão, mas continuo acreditando que podemos fazer muito mais do que fazemos em nosso “pequeno território”. E isso serve também para as organizações que ainda pensam o mundo de acordo com os limites de seus portões.

Neste sentido, me agrada ver a Psicologia invadindo as políticas de saúde pública e entrando cada vez mais nos espaços dos poderes públicos, até mesmo no Congresso Nacional. Por que não podemos pensar, então, em ações conjuntas que iniciem pelo tratamento diferenciado que podemos dar a nossa população?

Durante cinco anos tentei formar e manter um grupo de atendimento interdisciplinar em nossa região que objetivava ações concretas para a comunidade. O objetivo maior desta ação sempre foi o de integrar conhecimentos e práticas profissionais para melhor identificar as necessidades das pessoas. Assim, a saúde integral – numa visão global – foi o principal foco do grupo. Contudo, o atendimento interdisciplinar e transdisciplinar – no estabelecimento do diagnóstico e da práxis terapêutica – também deveriam proporcionar uma mudança de mentalidade e um “fazer diferente”. Para tanto, era exigido de cada profissional comportamento proativo e disponibilidade para atender a outras demandas, originárias da própria sociedade. Significava doar-se um pouco mais, ficar mais atento e disponível para as necessidades apresentadas pelos pacientes, pela comunidade e interagir freqüentemente com os demais profissionais da área da saúde. Porém, poucos permaneceram nesta prática. E os “poucos” voltaram para dentro do seu “território”, tentando mudar o que, para eles, era possível. Nossa cultura local talvez não permita um “fazer diferente”. Talvez não aceite bem a ampliação de novas práticas terapêuticas. Talvez isso assuste um pouco àqueles que buscam ainda uma certa “zona de conforto”.

Neste sentido, e com este exemplo, podemos dizer que as diferenças culturais na formação acadêmica podem se tornar um grande desafio a ser superado para que o “novo” renasça em meio a tantas resistências que impedem ou atrasam a evolução de um conhecimento e de uma ação terapêutica maior.

Quando o sucesso incomoda.

No folclore popular e em determinadas culturas observamos rituais religiosos, simpatias e superstições baseadas na crença popular de que alguns sentimentos, especialmente os mais hostis, estão diretamente ligados às tragédias e as dificuldades na vida de algumas pessoas.

A inveja, por exemplo, é um dos sentimentos mais combatidos neste sentido. Porém, há que se estabelecer uma diferença importante entre a inveja sob o ponto de vista danoso e a inveja sob o ponto de vista da admiração e do aprendizado mútuo.

Quando o sucesso de uma pessoa passa a incomodar a outra é sinal de que, infelizmente, este “mal-estar” resultará num sofrimento emocional ainda maior (quanto mais o outro se destaca, mais o “incomodado” sofre com isso).

A pessoa que se incomoda com o sucesso alheio geralmente traz consigo um sentimento de menos-valia provocado por uma baixa auto-estima. Ou seja: se engana a parcela da população que pensa que quem inveja está causando um “mal terrível” ao invejado.

Na verdade, quem se incomoda mais com o sucesso alheio produz em si mesmo um sofrimento tão grande que – para alguns – a única forma de aliviar a “dor de cotovelo” é pensar e agir em prol da diminuição do sucesso do outro. Esta tentativa consiste, na fantasia da pessoa, em minimizar suas próprias dificuldades na medida em que a diferença causada pelo sucesso do outro diminui e, este, se nivela ou se torna mais “parecido” com a “vítima”.

Porém, geralmente, as pessoas de sucesso não se importam com isso. Os grandes empreendedores não encontram nesta atitude algum obstáculo para interromper seu percurso de sucesso. E por mais que o “outro” tente criar dificuldades, no final, quem sai mesmo perdendo a chance que poderia ter de encontrar uma feliz referência, um modelo a seguir ou, quem sabe, uma parceria de sucesso, é realmente quem se importou ou se incomodou com o sucesso alheio.

Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, costumava tratar este aspecto através dos conceitos da pulsão de vida e de morte, afirmando que estas pulsões estão dentro de cada um. Temos, contudo, o livre-arbítrio para fazer – de preferência – uma escolha adequada. E esta escolha (pulsão de vida) implica em aprender a admirar o sucesso alheio e compartilhar as conquistas na coletividade. Do contrário, poder-se-á amargar o próprio fracasso.

Planejamento Estratégico na Gestão de Carreira

Sabe-se que, até bem pouco tempo, Gestão de Carreira era algo que soava estranho aos ouvidos das pessoas. Se considerarmos que no século passado a empregabilidade se voltava mais para os interesses financeiros visando unicamente à remuneração, saberemos compreender por que a Gestão de Carreira passou a compor um novo cenário na atualidade. Gestão de Carreira representa, na verdade, uma porta que se abre para um mundo cheio de oportunidades, de caminhos e rotas ainda não desvendados. Na Gestão de Carreira o foco principal passa a ser a pessoa e o seu Projeto de Vida.

Nunca se falou tanto sobre a importância do planejamento estratégico nas empresas como no surgimento da globalização. Era necessário, para que as empresas continuassem vivas e competitivas no mercado, que elaborassem um plano, que tivessem ao menos um mapa e uma bússola para estabelecer um caminho que pudesse ser percorrido de forma visionária. Mas, para que as empresas pudessem planejar com vistas ao futuro, elas teriam que partir para uma mudança de mentalidade que implicaria no desenvolvimento de novas competências e habilidades.

Em termos de competência podemos destacar a capacidade visionária que as empresas devem ter para construir uma imagem que garanta a todos o real cumprimento de sua missão. E para que a empresa possa alcançar este resultado deve contar com a sua principal ferramenta de trabalho: a paixão pelo que faz. É exatamente por isso e para garantir o principal ingrediente do sucesso, que o planejamento estratégico começa pelo resgate histórico da organização. Buscar a história da empresa significa identificar o que realmente move sua engrenagem. É, portanto, necessário encontrar o motivo da existência da empresa e de sua trajetória.

Atualmente, o Planejamento Estratégico já não é mais uma atividade destinada exclusivamente às empresas. Na Gestão de Carreira o profissional é quem vai gerir a sua carreira. A pessoa passa a ser o diretor da sua própria empresa chamada “Vida”. Para tanto, é necessário em primeiro lugar identificar seu talento ou vocação. Significa desvendar primeiramente a sua missão para depois estabelecer ações estratégicas que possam garantir o cumprimento desta. Na verdade, o planejamento aqui, em Gestão de Carreira, está ligado diretamente com o projeto de vida de cada pessoa. É o que a pessoa pretende fazer enquanto viver. Porém, com uma diferença: é o que pretende fazer com o coração, com paixão. Pois nada se mantém por muito tempo se não houver amor e identificação com o que se faz. Saber qual é a sua vocação, o seu talento, é de fundamental importância para planejar ações que venham atender aos seus interesses.

Além disso, quando se fala em Planejamento Estratégico na Gestão de Carreira entende-se que todas as necessidades da pessoa devem ser atendidas, pois se houver uma única necessidade não satisfeita será como construir um prédio sem um pilar que, junto aos demais, faria enorme diferença. Por isso utilizo o termo “Projeto de Vida” na Gestão de Carreira para que as pessoas possam compreender que alcançar o sucesso é muito mais do que obter uma boa remuneração. Alcançar o sucesso é construí-lo diariamente com base nas necessidades que toda pessoa possui. Significa incluir no Projeto de Vida tudo aquilo que realmente é importante: a família, o lazer, o trabalho e outros. Se faltar qualquer um desses pilares, a Gestão de Carreira, da forma como teria sido conduzida, não alcançaria seu principal objetivo: a realização do indivíduo. O sucesso e a tão desejada felicidade nada mais é do que obter prazer e realização naquilo que se faz.

O Processo de se reinventar continuamente

Segundo Idalberto Chiavenato, um dos maiores autores nacionais na área de administração de empresas, estratégia empresarial e recursos humanos: “… apesar dos rápidos e profundos avanços da tecnologia da informação e seus poderosos softwares de integração do negócio, ainda são as pessoas que conferem inteligência, saber e competência para a organização”.

É exatamente neste ponto que a Psicologia Organizacional atua: extraindo o máximo possível das pessoas para que elas realizem coisas audaciosas ou extraordinárias.

Visando reinventar o seu negócio e projetar talentos, a Psicologia Organizacional oferece atividades que auxiliam diretamente a pessoa ou a empresa no seu processo de reinvenção.

Uma das atividades que fundamenta esta proposta é a Avaliação de Potencial. O método utilizado inclui entrevistas individuais e a utilização de testes psicométricos e projetivos. Os resultados obtidos nesta avaliação inicial são essenciais para identificar o perfil profissional de cada pessoa e para dar prosseguimento às diversas atividades desenvolvidas no processo de aprimoramento profissional. Na avaliação de potencial identifica-se os pontos fortes e os pontos fracos de cada pessoa, incluindo os conhecimentos técnicos, a formação acadêmica e as qualidades pessoais. Ou seja, competências e habilidades, bem como os “pontos-cegos” são identificados para melhor orientar as pessoas dentro de um programa específico de treinamento e desenvolvimento profissional.

Sabe-se, contudo, da exigência do mercado de trabalho quanto à qualificação profissional. Também é de conhecimento de todos que as empresas passam por dificuldades expressivas na busca de profissionais qualificados e aptos a preencherem as vagas oferecidas. Encontrar pessoas que possam estar cada vez mais próximas do perfil do cargo e da cultura vigente da empresa acaba tornando-se um grande desafio nos processos de seleção e atração de talentos. Também é do conhecimento da maioria que o mercado exige cada vez mais pro atividade e capacidade visionária. Pessoas que possam contribuir com soluções rápidas e eficazes para os principais problemas apresentados são o que as empresas procuram.

No processo de seleção incluem-se dinâmicas, técnicas e problemas situacionais que exigem raciocínio rápido e apresentação de soluções inteligentes. O perfil do profissional qualificado e apto a ingressar ou reingressar no mercado de trabalho é este que consegue visualizar tanto as necessidades da empresa quanto antecipar tendências competitivas. E isto implica uma mudança de mentalidade para quem está determinado a fazer parte deste universo.

Se em tempos remotos, enviar apenas um Curriculum Vitae ou comunicar alguns contatos da necessidade de reingressar no mercado de trabalho era suficiente, na atualidade já não é mais o único caminho. Falamos, hoje, sobre pesquisa de necessidades mercadológicas. Ou seja, as pessoas são orientadas a pesquisarem o mercado e as empresas onde desejam trabalhar visando identificar sua cultura organizacional e suas principais necessidades, incluindo estratégias que poderão tornar a empresa ainda mais competitiva. Isto muda radicalmente tudo que se pensava e se fazia há algum tempo.

Num processo de recolocação profissional é o candidato que deve investir tempo e energia em prol da sua recolocação, nem que para isto tenha que trabalhar inicialmente para determinada empresa no sentido de apresentar um projeto que esteja de acordo com a sua realidade e, acima de tudo, comprovar criatividade e a importância que tem sua recolocação para a empresa. Provar que a empresa perde e perde muito se não conseguir identificar ou reconhecer neste perfil o profissional que estará mais bem preparado para assumir determinadas responsabilidades e contribuir estrategicamente para o aumento dos lucros da empresa, passa a ser o maior diferencial competitivo. Chamamos isto de: “o processo de se reinventar continuamente” ou, ainda, “o processo de gerir sua própria carreira”. O que não é fácil. É uma arte implementada com trabalho duro e que requer liderança visionária. Liderar e gerir sua própria carreira significa estar atento às oportunidades do mercado e estar disposto a contribuir com o que se tem de melhor.

Partindo desta mudança de mentalidade qualquer outra ação torna-se de fundamental importância e aceitação no mercado de trabalho, pois não se pensa mais numa simples apresentação de Curriculum Vitae e, sim, uma elaboração estratégica do Curriculum Vitae e atuação estratégica no mercado. Neste sentido, as várias atividades desenvolvidas pela Psicologia Organizacional e as Consultorias em Gestão de Pessoas e Desenvolvimento, que utilizam as principais ferramentas de trabalho, tornam o caminho a ser percorrido muito mais seguro e eficaz. Por fim, a avaliação de potencial é o ponta-pé inicial para todas as demais atividades, desde a elaboração estratégica do Curriculum Vitae até a preparação do candidato para as entrevistas de seleção, construindo e consolidando sua imagem pessoal de acordo com o seu perfil profissional.