A cláusula de confidencialidade e o trabalho

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Em minhas atividades de consultoria, principalmente em empresas de alta tecnologia e/ou inseridas em um mercado extremamente concorrido, quase sempre o cliente me solicita orientações sobre como manter a confidencialidade das informações junto aos profissionais que fazem parte de uma equipe de projeto. É lícito exigir / obrigar a manutenção de sigilo de informações? Posso incluir esta exigência no conteúdo do contrato de trabalho?

Pois bem, em minhas pesquisas pela internet, localizei um excelente artigo, elaborado pela equipe da Ribeiro de Oliveira Advogados (www.ribeirodeoliveira.com.br) no qual descreve de forma clara e objetiva este assunto. Segue abaixo o artigo na íntegra.

A cláusula de confidencialidade e o trabalho

No mundo globalizado e virtual em que vivemos está cada vez mais comum o empregador exigir que os empregados e até mesmo os prestadores de serviço firmem um termo de confidencialidade em razão da alta concorrência, pois ninguém mais está sozinho no mercado.

O termo, aos olhos do empregador, dá um certo conforto enquanto as relações de trabalho estão vigentes, tornando-se um pesadelo quando ocorre a rescisão contratual.

Isso porque a alta tecnologia e qualidade dos produtos e serviços têm que imperar no mercado, sob pena de se perder o lugar. Assim, a competitividade é algo que tem que estar latente o tempo todo, além de medidas contínuas e agressivas.

Em razão dessa competitividade, o termo de confidencialidade acaba se destacando nas relações de trabalho. Não que ele vá solucionar os conflitos que poderão advir, mas é uma arma a mais que o empregador terá se eventualmente escapar algo que não poderia vazar.

Referido termo, geralmente, vem revestido de tudo que o empregado deverá manter sigilo, desde o mais simples até o mais complexo ato, dentre os quais podemos destacar a confidencialidade de toda e qualquer informação técnica, industrial, comercial e administrativa, durante a vigência ou após a rescisão do contrato, sob pena de ser responsabilizado civil e criminalmente, sem prejuízo da aplicação das penalidades previstas na legislação trabalhista, especialmente a justa causa.

Nesse mesmo passo, são considerados “segredos de empresa”, dentre aqueles bens e direitos de propriedade do empregador, a atividade material e/ou intelectual do empregado, como o aperfeiçoamento técnico adquirido durante a vigência do contrato, seja através de prática, seja através de estudos.

Diante de tais restrições, passamos a pensar, será que de fato o empregador tem tanto poder assim, a ponto de ter poder até sobre a intelectualidade? Até que ponto tal cláusula restringe o poder de trabalho ou veda esse mesmo trabalho a outro empregador? São questões de relevância que devem ser analisadas separadamente.

A primeira delas, não poderia deixar de ser, é o texto constitucional que, em seu art. 5º, inciso XIII, dispõe que: “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.

O empregado está sujeito a ações penais e de órgãos reguladores; não é tão fácil violar o compromisso assumido 

Sendo livre o exercício de qualquer trabalho, salvo as qualificações impostas pelas leis que regem determinadas profissões, a cláusula de confidencialidade seria, a princípio, válida apenas enquanto durasse a relação contratual, já que a rescisão contratual rompe com todo tipo de relação que antes existia. Havendo o rompimento, nada impede que o trabalhador seja contratado por outro empregador para desenvolver, na maioria das vezes, função similar a anterior.

Na verdade, eventual revelação de algum dos itens considerados confidenciais teria muito mais característica de ética e moralidade do que as características restritivas do termo de confiabilidade anteriormente assinado, mesmo porque, se causar danos ao antigo empregador, além da tipificação de crime, poderia responder por danos morais e até materiais.

O crime se tipifica pela revelação de segredo, conforme disposto no artigo 154, do Código Penal: “Revelar a alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem“, tendo como pena de detenção, de três meses a um ano, ou multa. Bom observar que tal modalidade de crime somente se procede mediante representação, se não houver a queixa formal e expressa não adianta apenas elaborar o Boletim de Ocorrência.

Por sua vez, o dano, pode vir acompanhado da prática de ato ilícito, conforme dispõe o artigo 186, do Código Civil: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito” e artigo 187. “Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes“. Nos dois casos a obrigação de reparação do dano é obrigatória (artigo 927, do mesmo diploma).

Tal comportamento não é diferente para aqueles em que a própria profissão impõe o sigilo profissional, a exemplo dos médicos e advogados, sendo sua violação, também, tipificada como crime e ato ilícito.

Além dessas penalidades, existem os procedimentos impostos pelo órgão regulador da profissão envolvida (OAB, conselhos federais e regionais), podendo, em certos casos, até perder a capacidade profissional.

Como se percebe não é tão fácil violar os compromissos assumidos. Mas como fica o dispositivo constitucional sobre o trabalho ser livre? É livre, sim, enquanto não esbarrar no direito de outrem.

Dessa forma, entendemos que a cláusula de confidencialidade não restringe o emprego e a nova contratação, desde que respeitados o sigilo e os termos ajustados no antigo emprego, exatamente para não esbarrar no direito de outrem.

Sair do Labirinto

LabirintoNa mesma medida que desejamos intensamente amar tememos, desde sempre, o contraponto dessa experiência: a rejeição e o abandono. O sociólogo polonês, Zigmunt Bauman, tentou explicar o momento que atravessamos nesta “sociedade líquida” que propõe a superficialidade dos vínculos. Contudo, o filósofo francês, Pierre Lévy, nos mostra outra saída para esta ambigüidade. Ele nos leva para uma fascinante viajem que permite reconhecer o outro lado da nossa alma, revelando a verdade nunca antes dita com tanta maestria:

“Cedo ou tarde será preciso enfrentar o seu dragão. Cada um de nós tem na vida um monstro diferente. O que parece terrível para uns, para outros nada mais é do que um incômodo passageiro. Mas para todos existe um “grande medo”, um Minotauro no centro de seu labirinto interior, uma besta imunda a ostentar nosso rosto.

Um dia será preciso lutar por si, por sua própria causa, e não por alguma finalidade elevada, social, política, humanitária, espiritual ou qual­quer outra. Decida-se de vez a enfrentar o que o impede de viver plenamente. Guerreie por sua vida. Lute contra o seu grande medo. Hoje é um bom dia para aceitar o combate, parar de fugir, lutar com o que mais o aterroriza. Você entende que as pessoas e as situações que o deixam mal são meros disfarces desse medo, as máscaras do dragão que o habita?

Toda vida contém uma descida aos infernos. O labirinto é uma representação clássica do mundo infernal (o rei Minos era juiz dos infernos), mas também da matriz. Como sair do labirinto? Como retornar do país dos mortos? Como ressuscitar? Ou renascer?

Teseu, como todos os heróis, combate o monstro antes de unir-se à princesa. A princesa, ou Ariadne, é seu lado feminino, sua anima, sua parte emotiva e terna. Foi porque se uniu à sua parte feminina por um fio, porque se uniu consigo mesmo que Teseu pôde vencer seu medo (o Minotauro) e tornar-se livre (sair do labirinto). Ele está sufici­entemente seguro de sua identidade sexual para aceitar seu lado femi­nino. É a energia da união consigo, do encontro consigo mesmo (o fio que une Ariadne a Teseu) que lhe permite tornar-se livre. Tornar-se livre, tornar-se uno e vencer o próprio medo são a mesma e única coisa. Ariadne, como todas as companheiras dos heróis, libera seu lado masculino, sua força e coragem. O herói que libera a princesa aprisionada emancipa seu próprio lado feminino. O dragão é sempre o medo, o medo de ser si mesmo… ou de deixar de sê-lo se nos liberarmos. O argumento que se apodera de nosso ser e no qual nos aprisio­namos: eis o nosso dragão. Enfrentar o dragão é reencontrar a situa­ção, exatamente a situação em que a armadilha se acomodou. Retornar ao instante da queda, ao lugar onde perdemos a liberdade. A frase que nos condenou. A idade em que perdemos a visão. Deve­mos reencontrar esse instante de que queremos fugir com todas as nossas forças. E uma vez lá, será preciso reviver o nosso papel, mas, desta vez, saindo da armadilha por cima. Se o acontecimento origi­nal tiver provocado o medo ou o orgulho, devemos nos desprender com plenitude ou humildade. Sair com inocência se tiver sido a cul­pa a origem da situação. Herói, princesa e dragão são a mesma e única pessoa.

Só consigo apreciar a mulher que há em você, porque minha di­mensão feminina é capaz de reconhecê-la. Só sou capaz de amar a mulher que há em você, porque amo a mulher que há em mim. Você só consegue amar o homem plenamente homem que há em mim porque tem em si essa dimensão de virilidade assumida, plenamente realizada, amada. Então você é capaz de amar o homem que sou, sem invejar minha virilidade, sem temer minha estranheza. Da mes­ma forma, meu amor por você não está misturado com nenhuma inveja de sua feminilidade triunfante, nenhum medo, porque essa feminilidade também está em mim. O amor é a relação recíproca das almas e de suas diferenças. Uma “identidade” que não considera as identidades diferentes que encontra é uma identidade morta, reativa, odiosa, impotente. Amar é despertar o outro que há em si. Abandone para sempre as opiniões que os outros têm de você. Afaste-se completamente das imagens e representações que você faz de si mesmo. Abandone totalmente qualquer idéia de mérito ou de culpa, de inferioridade ou de superioridade. Não há nada a “pro­var” nem para si nem para os outros. Pare de perguntar quem você é. A identidade é uma sujeição: você só é manipulado porque forjou uma imagem de si mesmo. A identidade é uma prisão”.

Saia do labirinto da identidade. “Eu existo” é o título mais elevado. Tudo o que lhe acrescentar­mos o depreciará.

Dica de Filme – Hair

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Por ter se tornado um marco de uma geração inteira e um ícone da contra-cultura, Hair, musical colorido e dançante de Milos Forman acabou introduzindo alguns paradigmas para os musicais que viriam logo em seguida. A exemplo de Um Estranho no Ninho, este filme sorridente e saltitante do diretor tcheco é um representante óbvio do anarquismo e da rebeldia excitante que marcou a década de 60. Além disso, é a síntese do inconformismo, característica recorrente no cinema elegante de Milos Forman. As músicas, o ritmo, os diálogos, tudo comporta um argumento simples e inteligente, ajudando a compor um filme coeso e dançante, mas sem nunca deixar de ser bem argumentado.

Claude (John Savage), um jovem do Oklahoma que foi recrutado para a guerra do Vietnã, é “adotado” em Nova York por um grupo de hippies comandados por Berger (Treat Williams), que, como seus amigos, tem conceitos nada convencionais sobre o comportamento social e tenta convencê-lo dos absurdos da atual sociedade. Lá, Claude também se apaixona por Sheila (Beverly D’Angelo), uma jovem proveniente de uma rica família.

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Mas o grande destaque deste belo musical é o seu espírito coletivo. O grupo que Claude conhece e passa então a fazer parte é dotado de um senso coletivo explícito, que conquista quem quer que seja – mesmo que, por vezes, exagere no ostracismo. É interessante apontar que, mesmo nos momentos que precedem a ida de Claude para a guerra, há um claro exemplo deste companheirismo – o que acaba sendo reforçado pelo final corajoso e pacifista. Os conflitos internos existem, é claro, e disso ninguém escapa (pois falamos de seres humanos que erram, discutem e se acertam logo depois, tal como sua natureza demonstra-nos), mas o trabalho coletivo e o sacrifício em prol do próximo podem gerar grandes benefícios no futuro.

O líder do grupo, Berger, carrega consigo o símbolo do inconformismo, mas não deixa de ser ele mesmo o responsável pelo “sucesso” da equipe, convocando e incentivando seus comandados sempre com destreza e respeito, ganhando, assim, a confiança de todos. Conhecendo um ao outro, os personagens alcançam mais facilmente seus objetivos e atingem um grau muito maior de eficiência e, inclusive, satisfação pessoal por ver seu trabalho bem realizado. Ademais, a criatividade pode surgir em momentos onde o grupo está consciente de sua tarefa e o trabalho flui naturalmente – ainda mais se levarmos em conta que, com um grupo satisfeito com suas atividades e colegas, pode render muito mais.

E quêm não se lembra na música principal deste filme? Age of Aquarius, vide o clipe, neste link.

Portadores de necessidades especiais

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“Portadores de Necessidades Especiais” são pessoas que apresentam limitações importantes em seu desenvolvimento caracterizando um diagnóstico específico. São classificados como tal segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-IV) ou ainda outros manuais de diagnóstico para determinados transtornos do desenvolvimento. A busca (sem objetivos claros e consistentes) por um diagnóstico específico pode, muitas vezes, reforçar ainda mais o processo de exclusão dos PNEs (Portadores de Necessidades Especiais). Considerados, por uma parcela da população, “anormais” ou deficitários, são discriminados permanecendo à margem de uma sociedade preconceituosa e extremamente competitiva.

Se considerarmos o contexto político, social e econômico do nosso país, numa sociedade capitalista e, portanto, excludente, não teríamos que rever tais conceitos? O “diferente” não deveria ser aquele ou aquela que exclui e marginaliza seus membros? Não seríamos todos iguais pela condição humana a que somos submetidos? Quem é, então, o “diferente” ou o Portador de Necessidades Especiais? Não somos, nós, seres humanos imperfeitos, incompletos e mortais que poder-se-ia classificar, então, como sendo Portadores de Necessidades Especiais?

Todas essas questões servem para fazer um alerta especial. Não apenas à sociedade (a qual está realmente deficitária em muitos aspectos), mas fundamentalmente aos profissionais que trabalham diretamente com essa realidade. Seja qual for a área de atuação, profissionais “liberais” (autônomos), empresários ou administradores de empresas, juramos atender a população com vistas à inclusão e não à exclusão.

O problema é que pertencemos a este mesmo universo, de uma sociedade preconceituosa e mal informada. Corremos um grande risco, de cair na armadilha das nossas próprias crenças, credos e pré conceitos, buscando classificar e rotular pessoas para reforçar ainda mais suas dificuldades. Quem já não acompanhou a história de superação de tantos “deficientes”, com alguma “anomalia” importante, os quais foram além dos seus próprios limites? Não são estas pessoas que servem de exemplo de superação para todos aqueles que, em tese, teriam uma condição melhor?

De Porta em Porta

O filme “De Porta em Porta” mostra bem essa realidade. Um homem com uma deficiência mental importante, além de outras limitações, não se deixou abater pelo preconceito social e foi muito além de todas as expectativas ou prognósticos estabelecidos. Entendo que o diagnóstico deve servir apenas para conhecermos parte da realidade do paciente, para também conhecermos seus pontos fortes e suas dificuldades, sempre com vistas ao planejamento de ações terapêuticas ou à determinação de um plano terapêutico que possa contemplar as suas reais necessidades.

Contudo, dependendo da “deficiência” do profissional da área da saúde, poder-se-á determinar um único caminho para esses pacientes, ao invés de acreditar que a superação faz parte da nossa existência e que todos têm condições, sim, de reverter suas próprias dificuldades, buscando caminhos e rotas possíveis.

Dica de Filme – Dança com Lobos

Danca com Lobos

Kevin Costner protagoniza, produz, dirige (pela primeira vez) e ainda dá pitacos no roteiro. Dança com Lobos é perfeito tecnicamente, pois a excepcional fotografia e a competente trilha sonora emprestam certo teor de obra-prima ao filme.

Durante a Guerra Civil Americana, o jovem Tenente John Dunbar (Kevin Costner) protagoniza um ato heróico e, por sua opção, vai servir em uma região infestada de índios. Ao invés de participar de algum extermínio, ele consegue uma ousada aproximação com os nativos, descobrindo sua cultura, costumes e seu modo de comunicação. Vencedor de 7 Oscar, incluindo Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Fotografia, Dança com Lobos é um filme tão intenso quanto sua.

Sem muita coisa para se preocupar, John Dunbar vai mantendo um diário onde anota suas atividades, inclusive seus primeiros encontros com os Sioux. Ele registra como essa tribo é cautelosa e precavida com os estranhos. Não obstante, aos poucos os índios vão se aproximando e, por fim, conseguem comunicar-se com ele; para isso é trazida uma mulher chamada ‘Stands With a Fist’ (De Pé com Punho) que é branca mas foi criada pelos Sioux, especificamente por ‘Kicking Bird‘ (Pássaro Esperneante), após sua família ser massacrada pela tribo ‘Pawnee‘. Visto que fala inglês, ela passa a ser intérprete entre John Dunbar e os índios. O tenente passa então a viver com a tribo, que lhe dá o nome de ‘Dança com Lobos‘. A convivência com os indígenas faz com que ele vá adquirindo seus costumes, ao mesmo tempo em que ganha respeito dos nativos e conquista ‘De Pé com Punho‘.

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Ao descrever uma cena onde ‘Dança com Lobos’ tenta se comunicar pela primeira vez com alguns índios, o diretor cria uma situação muito clara de como a comunicação é importante. Ao passo que os gestos evoluem e os homens começam a se entender, há uma perfeita ilustração do exercício comunicativo ganhando forma em prol do sucesso. A vontade de se comunicar e aprender, aqui, exerceu uma forte influência no resultado final, pois se qualquer coisa tivesse sido dita (ou expressa, neste caso) e incompreendida, a confusão estaria formada – e qualquer gestor sabe que o início, as raízes da iniciação comunicativa são essenciais e devem ser tratadas com cuidado. No caso do filme, serviu como base para toda a amizade que se estenderia pela eternidade. Já num ambiente empresarial poderia significar o primeiro passo de uma bem sucedida parceria (seja interna ou externamente). A própria acepção literal do termo comunicação representa, etmologicamente, o sentido de “colocar em comum”, de compartilhar.

Uma questão de escolha. (Por Patrícia Prigol)

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Freqüentemente costumo ser questionada a respeito da existência de problemas na vida das pessoas. Manifestam a necessidade de compreender o porquê do seu sofrimento. Muitas chegam a acreditar que é algo do destino. Que foram “escolhidas” de alguma forma por não terem sorte na vida ou porque os outros não foram tão bons ou justos como “deveriam” ou, ainda, porque sua infância foi interrompida de maneira traumática.
Entre tantas justificativas, ainda prefiro aquela que se encontra no plano “real”, aquela que a realidade vem comprovar a sua existência: de que somos, todos, responsáveis pelo nosso sucesso e pelo nosso fracasso também. Tudo depende das nossas escolhas.
O pensamento contrário afirma ser mais fácil buscarmos um culpado para justificar nossas faltas. Talvez seja melhor acreditarmos que o “outro” é responsável por tudo que acontece em nossa vida. Seguindo com esta crença estaremos buscando num “outro” um sentido para nossa existência, uma direção. Estabelecemos desta forma, uma relação de dependência e submissão, a qual fortalece a crença de que não somos capazes de guiarmos nossa vida. Neste sentido, estaríamos fadados ao fracasso.
Acredito que mesmo em situações muito difíceis, incluindo as fatalidades da vida, poderemos superar as dificuldades, aprendendo com a dor e fazendo escolhas com dignidade e respeito às nossas necessidades. Martha Medeiros, escritora renomada, publicou o livro intitulado “O Divã”, o qual originou o filme que se encontra em cartaz. Ela aborda esta questão com maestria, com extrema competência e prova que a felicidade depende do modo como enfrentamos nossas mazelas.
Venho, com o passar do tempo, em minha profissão e em minha própria vida, pesquisando o que levaria as pessoas a fazer exatamente o contrário de tudo àquilo que poderia lhes trazer maior qualidade de vida. Lembro-me da história de um homem de oitenta e poucos anos que demonstrava muita vitalidade, participando de maratonas, preparando-se fisicamente e psicologicamente para os campeonatos. Ao ser indagado por um jornalista sobre o que o levaria a agir desta forma, contrariando todas as probabilidades relacionadas à sua idade, ele respondeu: “Faço exatamente o contrário do que a minha mente me pede pra fazer. Se ela pede para ficar parado na frente da TV ou se pede para permanecer dormindo mais do que o necessário, logo, coloco o meu calção, o meu tênis e saio para correr. Faço exatamente o contrário”. Eu diria que esta foi uma das alternativas encontradas por esse homem que, sabiamente, driblou as armadilhas de sua mente que – de forma ardilosa e astuta – tentaria levá-lo a acreditar que nada mais lhe restaria – neste momento de sua vida – a não ser esperar sua morte chegar.
Nossa vida é da nossa responsabilidade. Precisamos, apenas, fazer a escolha mais adequada.

A influência das emoções na produção das doenças

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Para a Psicologia e para a Psicossomática (ciência que estuda os efeitos do psiquismo e das emoções no surgimento das doenças) este assunto já não é desconhecido, nem tampouco surpreende diante dos resultados obtidos nas pesquisas realizadas. Contudo, e não faz tanto tempo assim, observamos a resistência de muitos na aceitação dessa realidade, de que as emoções estão diretamente ligadas à manifestação das doenças.
O que importa, entretanto, é alertarmos a população sobre os recursos disponíveis para que cada pessoa possa acessar sua “arma de defesa imunológica” contra a legião de bactérias e vírus que provocam doenças no organismo.
Por isso torna-se fundamental garantir a informação e a orientação, as quais podem contribuir na prevenção de doenças e no aumento da qualidade de vida da população:

  • As emoções sejam elas positivas ou negativas, são transmitidas a todas as células do corpo humano. O cérebro conta com mensageiros que levam aos órgãos os nossos sentimentos. São compostos químicos (os neurotransmissores) que reproduzem em códigos todas as nossas emoções. Assim, cada célula retrata o que estamos sentindo e como estamos vivendo.
  • Todo mundo hoje sabe o que faz bem para a saúde. Por que é tão difícil seguir essas orientações? Todas as recomendações médicas são engolidas por nossos complexos emocionais. Porque há um sofrimento emocional muito maior do que o sofrimento físico. E nós não consideramos o sofrimento emocional, sempre deixado em segundo lugar. Há uma profunda ignorância na nossa cultura do quanto as emoções comandam a nossa vida. Aprendemos na escola a escovar os dentes, a ter higiene, mas nenhuma escola ensina a lidar com os conflitos emocionais, a prestar atenção nos sonhos e como funcionamos psicologicamente.
  • A idéia de que as emoções negativas, consideradas hostis, aquelas mais comumente perceptíveis nas pessoas que são extremamente apressadas, irritadiças, pouco amorosas, que tomam decisões somente na base do certo e do errado, que não dão prioridade aos seus afetos, são muito mais propensas ao infarto, mesmo tendo os triglicérides em níveis excelentes, o colesterol zerado e uma ótima forma física. E isto já está comprovado cientificamente.

O alerta que se faz aos profissionais da área da saúde e a toda população pode ser explicitado através dessa frase: “É importante que todo profissional da área da saúde veja seu paciente como um indivíduo composto de um total – corpo e alma – e que suas emoções estão diretamente relacionadas às doenças que aparecem. Do contrário ele não vai ajudar na cura do paciente. Ele simplesmente vai funcionar como um bombeiro, que apaga o incêndio, mas não trabalha na fiação que está em curto-circuito”.
Isto serve para as organizações (empresas e demais instituições) que também assumem (assim deveriam) um compromisso com a saúde do trabalhador, com os aspectos de psicohigiene que deveriam fazer parte das políticas implementadas na coletividade, no intuito de assegurar os resultados contratados.

Transitoriedade: Palavra-Chave na atualidade

 

O tema apresentado no artigo “Responsabilidade Social” teve, como objetivo, a introdução de um novo conceito na atualidade: o da “transitoriedade nas relações”. Um movimento natural que se integra às novas exigências do mundo contemporâneo. Nossa capacidade de adaptação frente a essas exigências implica em posicionamento firme diante dos desafios que a vida nos apresenta e, principalmente, diante de cada decisão que tomamos.

A mudança de mentalidade, a qual me refiro, diz respeito às competências e habilidades que ainda precisamos desenvolver para nos adaptar às exigências que resultam da transitoriedade nas relações que estabelecemos. A única certeza que temos é que toda e qualquer relação, seja no trabalho ou na vida pessoal, poderá ser interrompida em seu percurso ou modificada em suas bases, resultando em novos caminhos ou novas diretrizes. Sabe-se, contudo, que essa demanda exigirá uma nova postura diante dos acontecimentos:

  • Renunciar às certezas do passado: Tudo que considerávamos ser imutável, e que trazíamos (boa parte) em nossa bagagem cultural. Na atualidade: “Tudo muda, nada é estático”.
  • Abrir-se, contudo, para as novas possibilidades de relacionamento: Significa enfrentar e aceitar a realidade de uma sociedade em transformação e tudo que a acompanha nesta nova fase, incluindo a diversidade de conceitos e comportamentos. Nunca falamos tanto em “inclusão” como agora. A inclusão do novo, do “diferente”, de caminhos alternativos para se chegar ao mesmo fim.
  • Parar de tentar eternizar as relações (sair do processo da idealização): Vivemos tempos de transitoriedade. É preciso sair da idealização que alimenta uma fantasia onipotente baseada numa pseudo-realidade para construir uma sociedade que se fundamenta no “real”. Significa sair do discurso e das identidades (representações sociais) para adotar uma postura de maior comprometimento e responsabilidade social.

Para desenvolver essas competências precisamos nos comprometer (nos envolver) com o processo de evolução contínua de uma nova sociedade que se reinventa a cada momento. O importante é tentarmos extrair o que há de melhor nesse processo. Aprender com os erros ou tropeços é essencial para nossa evolução. Pessoas de sucesso estão abertas para o “novo”, para as novas possibilidades. Elas assumem os riscos naturais que a vida apresenta, mantendo o foco no resultado de suas experiências.

Vítimas de si mesmo: uma escolha ou um destino?

Apesar da expressiva demanda para psicoterapia, nem todas as pessoas conseguem “finalizar” seu tratamento. Alguns pacientes tornam-se vítimas de si mesmo. Utilizo o termo “vitimização” com base na experiência profissional em relação a pacientes que se vêem vítimas de sua trajetória de vida (de suas próprias escolhas).

As “vítimas” geralmente apresentam um baixo limiar à frustração e pouca persistência na resolução de seus conflitos, o que as levam, invariavelmente, a interromper o tratamento antes mesmo de iniciá-lo. Minha experiência revela claramente quando o paciente tende a interromper seu tratamento já nas primeiras sessões. Ou seja, mesmo quando não apresenta nenhum transtorno psicoafetivo importante ou sintomas depressivos que possam revelar fatores orgânicos preponderantes, ou, ainda, um transtorno de personalidade que o levaria sistematicamente as tentativas de sabotagem no tratamento, a “vítima de si mesmo” geralmente se mostra apática e resistente, principalmente quando se trata de uma abordagem terapêutica que exige sua participação e um considerável investimento no alcance dos objetivos contratados.

Penso que os fatores culturais possam, também, contribuir consideravelmente para este quadro sintomático. Vivemos a era das respostas rápidas, extremamente objetivas e, muitas vezes, supérfluas, sem embasamento, mas que podem produzir um efeito acalentador. Mesmo sendo momentâneo, ou instantâneo este movimento leva as pessoas a buscarem “tratamentos” que prometem a cura para as dores da alma com o mínimo de esforço possível. Algumas práticas, inclusive, propõem às pessoas um pensamento mágico “levando-as” a acreditar que basta pensar a solução e, esta, virá como num passe de mágica.

Nunca vivemos tantas ofertas de cura como agora. Nessa sociedade líquida – denominação criada e utilizada pelo sociólogo polonês Zigmunt Bauman – a prioridade é a instantaneidade e a conseqüente liquidez dos laços sociais, tornando as relações efêmeras e superficiais.

Parece que estamos retornando a uma outra fase, já vivida. Na antiguidade, antes dos cientistas fazerem as suas primeiras grandes descobertas, no campo da medicina e depois em outras áreas, recorria-se aos curandeiros e às religiões na tentativa de curar as enfermidades, de aliviar dores físicas e emocionais. Depois, a ciência, na sua evolução, apresentou inúmeras ferramentas de trabalho e recursos imprescindíveis para a cura de determinadas doenças e males da humanidade através de uma tecnologia avançada que tomou conta do mundo e que, na atualidade, consegue oferecer tratamentos de grande relevância para a sociedade. Doenças que não tinham nenhuma chance de remissão, hoje, se mostram de fácil resolução para a medicina. Outras são controladas por medicamentos de ponta e tratamentos altamente eficazes.

Na área da Psicologia não foi diferente. Evoluímos e continuamos nesse processo de evolução. Porém, ainda me surpreendo com a oferta apresentada nesta grande “Indústria da Cura” que propõe tratamentos milagrosos. Àqueles que você lê o anúncio da propaganda, que promete resolver todos os seus problemas sem que você tenha o mínimo de participação no processo de melhoramento e de evolução. Infelizmente, através da disseminação deste pensamento mágico, nossa sociedade acaba por alimentar um “falso self”, uma falsa identidade.

Assim, as “vítimas de si mesmo” se vêem à margem da evolução do conhecimento e da tecnologia. Alguns, com escassos recursos internos, não encontram outra saída que não seja ser “apanhado” nessa teia do encantamento, da sedução e da manipulação. Aliás, característica marcante de uma sociedade perversa como a nossa que propõe a ilusão e a conseqüente negação da realidade como uma saída plausível para todos os males da humanidade. Talvez seja por isso que muita gente (muita gente mesmo!) se mata em tantas Guerras Santas. Talvez porque não seja possível manter os olhos (da alma) abertos por muito tempo.